13/08/2015 às 21h05m

Como nós e os europeus mexemos as peças ao longo das décadas?

Conceitos de "10 cerebral" ou "9 matador" têm tudo a ver com evoluções táticas

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol". Depois de longa ausência, voltamos aqui no FutRio.net a falar sobre alguns aspectos de dentro e fora de campo em relação ao esporte mais popular do mundo. Neste retorno, o tema de hoje tem a ver com questões táticas do nosso futebol. Mas o que isso teria a ver com a cultura do nosso esporte - você pode perguntar. Respondo: muito mais do que a galera imagina.

Para começar, a numeração no futebol não surgiu junto com o esporte. Isso é coisa do Século XX. Mesmo assim, faz muito tempo que ela existe. Para ser mais exato, desde 1928, com o Arsenal, na Inglaterra. O que pouca gente poderia prever naquela época é o quanto isso afetaria o jogo e a maneira de se montar times, ao longo das décadas seguintes. Num primeiro momento, isso só servia para identificar os atletas, a pedido das rádios inglesas. E assim tudo começou. Para faciitar, o sistema era igual ao do rugby, esporte "primo" do futebol. Do goleiro ao último atacante, a numeração era crescente, da direita para a esquerda, do 1 ao 11.

Na época da popularização dos números, o esquema era o 2-3-5. Os dois defensores eram 2 e 3, os três meio-campistas, 4, 5 e 6, e os atacantes numerados do 7 ao 11. Por exemplo, o ponta-direita era o 7, o atacante central, o 9, e o ponta-esquerda, o 11, mais ou menos como funciona hoje, de maneira popular. Na época, no entanto, essas posições não tinham nomes específicos. Os postos dos atletas eram de acordo com sua numeração, como "jogador número 8". Não havia variações táticas e todo mundo só jogava de um jeito. Mas é claro que isso mudaria ao longo do tempo.

Na própria Inglaterra, nos anos 40, surgiu o "WM", para fortalecer a defesa. Foi uma espécie de 3-2-2-3, que recebia esse nome porque o posicionamento dos atletas em campo, visto do ataque para a defesa, lembrava o desenho das duas letras. O sistema defensivo ganhou mais um jogador porque o camisa 5, o "center-half", juntou-se aos dois zagueiros. Lá na frente, o 8 e o 10 voltaram para compor o meio-campo para armar o jogo. Era o começo das mudanças até do senso tático destes jogadores. Por vezes, só um destes atacantes vinha atrás para jogar, o que popularizou a tática do 3-3-4.

E onde é que o Brasil entra nisso tudo? Justamente a partir daí. Isso porque a maneira como nós mexemos na "mesa de botão" foi diferente em relação aos europeus. É quando todos começam a impor sua filosofia de jogo e criar sua própria identidade futebolística. Lembra-se do atacante que recuava para compor o meio-campo? Isso cabia ao jogador que tinha mais técnica para armar o jogo. Daqueles três meio-campistas do 2-3-5, normalmente quem ia compor a zaga era o mais alto, o mais forte. E, com a evolução tática, a formação que passou a se popularizar a partir dos anos 50 foi o 4-2-4. É aí que cada escola de futebol passa a tornar seus números místicos para sempre.

Na Inglaterra, origem de tudo, os dois defensores solitários do passado viraram os laterais. Para a zaga, vieram o 5 e o 6, dois antigos meio-campistas. No meio, ficou o 4 e juntou-se a ele o número 8. E, no ataque, os pontas permaneceram como sendo 7 e 11, com os atacantes mais de área sendo 9 e 10. Aqui no Brasil, já não foi bem assim: o camisa 6, por exemplo, antigamente era o meia-esquerda e acabou recuando, virando o lateral canhoto. O 3 ficou na zaga junto com o 5, e o camisa 4 virou volante, junto com o 8. Em outros países europeus, outra variação. Enquanto o ataque permanecia intacto, a defesa tinha o miolo de zaga composto pelos números 4 a 5. Sobrou o 6 para o meio-campo. Aqui do lado, na Argentina, a maior discrepância em relação à nossa montagem. O camisa 2 foi para o meio da zaga, junto com o 6, com o camisa 4 no lado direito e o 3, no esquerdo. Sobrou na meia-cancha o camisa 5.

No ataque, apesar da numeração ter mudado pouco até aqui, os times passaram a ter um entendimento diferente quanto à numeração também ali, nos setores criativos. Por mais que jogassem quatro sempre no ataque, alguém sempre vinha um pouco mais atrás para ajudar na armação, para que não se congestionasse a área com mais que dois pontas e um jogador centralizado e goleador. Aqui na América do Sul, esse cara acabou sendo o camisa 10 (do qual sentimos tanta falta hoje em dia...). Na Europa, por vezes, foi o número 8 o responsável por isso. Mas é claro que a camisa 10 ficou estigmatizada por conta de Pelé, que apesar de ser o maior artilheiro que já houve, não era centro-avante: vinha de trás com sua qualidade fora de série para armar jogadas, mas era tão diferenciado que chutava de qualquer lugar e marcava. Foi nosso o primeiro grande "ponta-de-lança" no Brasil. Depois, viriam Zico, Roberto Dinamite, entre outros.

Mas foi na Argentina que acabou se criando o conceito de "10 clássico", que tanto falamos estar em extinção atualmente. Esse jogador recuou para o meio-campo e passou a ter uma função exclusiva de armar o jogo, sem penetrar muito na área e preferindo distribuir passes. Virou o "enganche", a balança entre o meio-campo e o ataque. Daí, surgiram, só no outro lado do Rio da Prata, craques como Maradona, Bochini, Ortega e Riquelme. Lá fora, Zidane, Gullit, Platini, Laudrup... Só craques. Na Inglaterra, porém, a 10 não ficou com esse jogador criativo. Ele compunha o ataque e, quando os britânicos passaram a jogar com duas linhas de quatro jogadores no meio, os pontas (7 e 11) recuaram para lá. Na frente, sobraram 9 e 10.

Essa característica do número 9 como o responsável por empurrar a bola para a rede ficou marcada por nós, brasileiros, que colocavam este jogador isolado no meio da área. E isso acabou sendo copiado por muitos países, como a Holanda e a própria Inglaterra. Aqui, quem recuou para o meio foi, num primeiro momento, só mesmo o camisa 10, na época dos três atacantes. Depois, o camisa 7 veio junto para aliar sua velocidade à cadência do companheiro no meio. Lá na frente, ficaram o 9 e o 11, números que ficaram de vez no imaginário nacional com a dupla Ronaldo e Romário, embora um camisa 7 (Bebeto) tenha sido o responsável por formar, com o Baixinho, um dos casais mais bem sucedidos do nosso futebol. O 9 do Tetra, em 1994, foi um meia, Zinho.

Em tempos de jogadores atuando com números como 37, 48 e 79, como atletas de futebol americano, admito sentir uma saudade dessa numeração antiga, ajuda a criar uma identidade com determinado jogador e também na identificação do estilo de cada um. Não é possível afirmar que a decadência do nosso futebol aqui no Brasil passa por isso, mesmo porque a Europa tem numeração fixa há vários anos e é quem mais nos tem dado lições em relação à evolução futebolística. De qualquer jeito, os velhos tempos deixam saudade...

Livro de cabeceira
Hoje, destaco um livro bacana que comprei quase que por acaso. "Nelson Motta - Resenha Esportiva" (Ed. Benvirá, 215 pg.) veio parar nas minhas mãos numa volta para casa, após uma manhã no Estádio Nilton Santos. Passei pelo shopping e fui à livraria, tinha um trocado no bolso, acabei levando essa obra do Nelson Motta que, como torcedor, esteve em vários Mundiais. As histórias de bastidores são divertidíssimas, quase folcóricas. Aliás, acabei comprando esse livro no lugar de um de Eduardo Galeano, mas isso é papo para outra coluna...

Jogando por música
Já que falamos de numeração na coluna de hoje, fica difícil não lembrar de "Camisa Dez", de Luiz Américo. Composta para a Copa do Mundo de 1974, a música questionava o então técnico Zagallo sobre o substituto de Pelé, que foi a grande ausência nacional no Mundial da Alemanha. O que prova que o tormento pela falta de um número 10 não é nada novo. A propósito, quem vestiu a mística camisa em terras germânicas foi Rivelino, do Corinthians.

Semana que vem, tem mais. Grande abraço.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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