20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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