27/08/2015 às 22h42m

Técnicos negros: uma instituição rara no futebol

Cenário é restrito para treinador no Brasil, apesar de sucessos já comprovados

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Chegando nesta quinta-feira com mais uma coluna aqui no FutRio.net. Nesta semana, o tema é algo pouco comum no futebol, não só no brasileiro, mas no mundo inteiro: técnicos negros. O tema é polêmico. Muita gente pode pensar que é fácil achar esses personagens, mas tentarei mostrar nas próximas linhas que a situação não é assim tão fácil. Algumas razões são fáceis de explicar e de entender. Outras, nem tanto. Mas é uma marca da cultura de nosso esporte. Por mais que algumas figurinhas já sejam carimbadas dentro dos clubes cariocas e nacionais, um exercício mental já basta para compreender que, no geral, é raro ver afro-brasileiros à frente dos times grandes, ainda mais com continuidade e reconhecimento. O curioso é que jogadores negros não faltam. Mas, e os "professores"? Aqueles que têm a capacidade de comandar? Por que é que o ex-atleta - ou mesmo o estudioso do futebol - que é negro tem dificuldades para firmar-se?

Me inspirou a escrever sobre isso o caso de Cristóvão Borges, ex-técnico do Flamengo (que ilustra a coluna de hoje e foi clicado por Gilvan de Souza, fotógrafo do Fla e ex-companheiro de trabalho no LANCE!, a quem mando aqui um abraço). Pouco antes de deixar a Gávea, ele reclamou de racismo por parte de alguns torcedores. Houve quem duvidasse e até relativizasse. É verdade que ele foi muito criticado; para mim, mais pelos maus resultados do que por qualquer outra coisa. Mas é fato que ainda somos um país racista, talvez racista até demais para entender que treinadores negros são capazes de fazer sucesso de verdade em nossos clubes. E isso se explica pela ausência de nomes consagrados nessa condição.

Lembremos alguns que já treinaram equipes da Série A: Cristóvão, Lula Pereira, Silas, Jayme de Almeida, os falecidos Alcir Portella e Valmir Louruz. Dos anos 90 para cá, os mais relevantes. Muitos contestados, mas com belos resultados onde treinaram, até nos grandes: Cristóvão deu continuidade ao trabalho de Ricardo Gomes no Vasco com um vice brasileiro, Lula Pereira conquistou vários Estaduais, Jayme ganhou uma Copa do Brasil pelo Flamengo e Louruz, pelo Juventude. Então, por quê tanta desconfiança e falta de estabilidade, enquanto outros nomes de menos currículo são mais valorizados? Razões para isso não faltam, e uma delas é um velado, sutil, mas existente preconceito com treinadores negros por aqui.

Pare para pensar: quantos negros já treinaram a Seleção Brasileira? Antes de 1959 - pesquisei - não achei nenhum. O último foi Gentil Cardoso, uma lenda no Rio, mas à frente do Brasil só em cinco partidas. Viveu amargurado por nunca treinar a Canarinho num Mundial. Em nossos clubes, a raridade é menor, mas presente. Você pode pensar: "Mas e os citados antes, Cristóvão, Jayme, Andrade, Alcir?". É verdade que são/foram treinadores com bagagem interessante, mas não parece curioso que a maioria só seja conhecida por serem aqueles "bombeiros"? Os interinos que assumem após a saída do efetivo e que, por abraçarem a equipe, acabam dando certo mas nunca têm uma sequência, mesmo após um bom resultado conquistado? Basta ver que, mesmo bem sucedidos, esses caras têm vida curta nos clubes: ou ficam escanteados por lá mesmo, ou só rodam por times menores dali em diante.

Entendam: não quero aqui defender a qualidade destes nomes só pelos títulos. É claro que ela é discutível, como é discutível também a qualidade do técnico brasileiro em geral. O que se questiona é a falta de paciência e a reputação não tão grande deles entre dirigentes/empresários/conselheiros. Veja Andrade, primeiro negro campeão brasileiro como técnico, em 2009. Mantido no Flamengo, logo caiu. De lá para cá, nunca mais comandou nenhum time da Série A. Esteve até aqui na Segundona do Rio. Cristóvão viveu bons dias no Vasco e no Bahia, mas considerá-lo top de linha nunca foi cogitado. Hoje, nas Séries A e B do Brasileiro, só há dois negros em 40 clubes. E isso não é novo em nosso futebol. Para entender melhor, vamos destrinchar melhor a hierarquia do nosso esporte.

Fiquemos só nos clubes da Série A do Brasileiro. Nenhum deles tem um negro como presidente ou dirigente da alta cúpula de futebol. Como técnico, só um: o Grêmio, de Roger Machado. Ao chegar aos jogadores, aí o número explode. Nada menos que 247 atletas são negros ou pardos, uma média de mais de 12 por clube. E se formos para cargos com menos mídia, até mais propensos à "coadjuvância", como roupeiros e massagistas, a classe é quase toda composta por funcionários negros. E isso não é uma coincidência. Desde sempre, cargos de confiança, ou muito valorizados em nosso futebol, dificilmente são colocados nas mãos de gente de cor. Mas é claro que nenhum dirigente vai admitir isso; nem para a mídia, nem para si mesmo, de tão enraizada que é a coisa...

Se os números ainda não convencerem, voltemos então aos quase 250 jogadores negros da nossa Primeira Divisão: só 11 são goleiros. E a maioria dos clubes da Série A - também 11, por coincidência - não tem um só negro em suas balizas. O jogador negro, em linhas gerais, acaba sendo visto, superficialmente, como o que tem um vigor físico privilegiado, seja na força ou na agilidade. Mas a atitude de "pensar o jogo", organizar jogadas no meio-campo e chamar a responsablidade não costuma ser outorgada a um atleta negro. De cabeça, dá para lembrar de alguns, como Didi, Jairzinho, Mengálvio ou Djalminha, aqui no Brasil. É como se o negro fosse incapaz de exercer funções que requerem intelecto, o que, sabemos, é uma bobagem colossal. Mas é o pensamento vigente para muitos que comandaram e ainda comandam nossa estrutura futebolística.

Há quem diga que falta interesse do negro de fazer parte mais profundamente do universo do futebol e que isso explica a falta de nomes capazes de gerir situações. Serginho Chulapa, ex-atacante do Santos, é um deles. Não posso dizer que discordo, mas não me parece preciso avaliar assim, já que as portas se fecham tanto Brasil afora que é difícil ter certeza da procura por esses postos. Como diz o Thuram, grande zagueiro francês: "Se em algum momento você vê que, de fato, não há muitos treinadores como você, você não segue esse caminho. Vê que terá mais dificuldades, se desanima e leva referências de que não é possível". E material humano aqui não falta. Os cursos de treinadores têm um percentual de alunos superior à proporção de treinadores negros. Auxiliares técnicos, membros de comissão técnica, quase todo time tem. Não é exclusividade brasileira, mas se é verdade que o futebol reflete nossa sociedade, então ele acaba mesmo sendo restritivo aos negros. Então, qual é a solução?

Nos Estados Unidos, há um sistema de "cotas" no futebol americano em que todo time precisa entrevistar pelo menos um negro na hora de escolher um novo treinador. De lá para cá, dois deles já ganharam o Super Bowl. Não sei se a moda pegaria no Brasil. Acredito que a busca pelo conhecimento - como defende o Roque Júnior nesta entrevista - seja o caminho menos longo para que se chegue a um patamar de respeito e reconhecimento. Existe potencial, mas é preciso mais: quebrar as barreiras por si próprio. Esperar que elas caiam é inútil. Por enquanto, é curioso e triste que o maior esporte do mundo, que tem um negro como seu maior expoente - e outros tantos como os maiores - ainda seja tão restritivo com quem procura fazê-lo melhor. E tudo isso por causa da cor da pele.

Jogadores negros por clube da Série A do Brasileiro:
Avaí e Joinville - 16
Vasco, Cruzeiro, Flamengo, Internacional e Atlético (PR) - 15
Chapecoense - 14
Ponte Preta e Figueirense - 13
Goiás, Santos, Atlético (MG) e Fluminense - 12
Grêmio e Sport - 10
São Paulo - 9
Corinthians e Coritiba - 8
Palmeiras - 7

imageLivro de cabeceira
Hoje, destaco "Dali o Joca não perde" (Ed. Novaterra, 172 pg.), da autoria de Victor Kingma. Causos interessantíssimos e engraçados sobre o futebol, dos grandes estádios aos campos de várzea. Seja ficção ou realidade, vale por cada passagem. O prefácio é de ninguém menos que Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Uma forma luxuosa para abrir uma publicação que é ótima por si só.








Jogando por música
Pesquisando nesta semana sobre o futebol na MPB, achei uma canção interessante e que só ouvi uma vez, há quase 15 anos. Chama-se "Canhoteiro", de Zeca Baleiro. Uma figura pouco conhecida no Rio, mas reverenciada em São Paulo. Nascido no Maranhão, morreu jovem, mas marcou seu nome pelo São Paulo Futebol Clube e há quem considere uma das maiores injustiças do futebol sua não-ida ao Mundial da Suécia, em 1958. A canção, assim como o futebol do ponta-esquerda, é uma beleza. Aqui, na voz do santista baleiro e do tricolor Raimundo Fagner.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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