03/09/2015 às 23h58m

Camisa 10: extrema necessidade ou puro fetiche?

Ausência de meias cerebrais no Brasil levanta discursos polêmicos

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Abrindo o mês de setembro para falar de campo e bola, que afinal de contas é o que todo mundo gosta. Um tema que tem sido muito debatido nos últimos anos por aqui é a questão do camisa 10. Não a numeração em si, como já falamos em outra edição desta mesma coluna, mas o jogador com a função de ser o número 10, ou seja, o meio-campista que arma o jogo, que pensa a partida, cadencia o ritmo e deixa os companheiros em boas condições de fazer gols. Para muitos, este é um artigo raro no futebol brasileiro.

De fato, fica difícil pensarmos em nomes realmente consagrados, até há quem diga que é um tipo de jogador que está em extinção. Mas a questão esbarra em outros fatores: o fracasso do futebol do Brasil em competições internacionais recentes, a baixa sensível do nível do jogo que se pratica por aqui, a falta de craques brasileiros em patamar internacional em comparação com as décadas passadas, a ausência de alguém que pense o jogo no meio-campo da Seleção. Será que tudo isso é causado pela falta de um verdadeiro grande camisa 10?

Para tentar responder, primeiro é preciso separar algumas questões. O número 10 é sagrado no Brasil. Não é só o numeral em si, como eu já disse, o que faz a gente tirar desse balaio verdadeiras divindades como Pelé, Rivelino, Zico, Ademir da Guia, Roberto Dinamite e tantos outros. E explico porque: estes jogadores não eram exatamente o que os argentinos chamam de "enganche", esse tipo de jogador cerebral que atua ali no meio como garçom; eram muito mais que isso, eram completos, porque jogavam na meia, no lado, no comando de ataque, na ponta de lança, em todas as posições e sempre com maestria. Parecido com o que foi Maradona, com o que é Messi, por mais que todos enverguem a mítica 10.

Dito isso, abre-se a reflexão sobre a necessidade de jogadores como esses no futebol brasileiro. O camisa 10 tem que ser inteligente, técnico e preciso. Mas é claro que ele tem seus defeitos. Não marca muito, é lento porque precisa olhar e pensar o jogo - por mais que jogue de cabeça erguida, passa até uma impressão de má vontade pelo ritmo que adota. Mas é seu estilo. O problema é que, com o nosso futebol em constante evolução, a participação de todo um time na marcação é vista como essencial. Afinal, este é o jogo moderno de hoje em dia. Então, jogar com um homem dentro dessas caracteristicas seria ter um jogador a menos dentro de campo?

Ao longo dos anos, nos acostumamos a ver grandes meio-campistas jogando no Brasil. Tivemos Petkovic, Alex, Marcelinho Carioca, Zinho, Djalminha e vários que se notabilizaram por ter, no meio-campo, seu habitat natural. E, por mais que a qualidade deles seja incontestável, por quantas vezes se falou na "preguiça" de nomes como eles? Ninguém contesta, hoje em dia, a qualidade do Alex, que voltou ao Brasil com seus 35 anos e comeu todo mundo com areia. Mas, e quando ia mal nos tempos de jovem? Era o "Alexotan", o "soneca", que dormia o jogo todo... Zinho foi um dos grandes meias do Flamengo e comeu a bola, já veterano, no Palmeiras. Ainda assim, foi chamado de "enceradeira", por teoricamente rodar, rodar e não sair do lugar.

Não precisamos ir tão longe no tempo, vejamos hoje - mesmo com uma grande discrepância no nível dos jogadores. O Corinthians tem Danilo, um de nossos grandes meias atualmente, mas acusado de ser "lento demais". No São Paulo, há Paulo Henrique Ganso, superestimado no início da carreira, mas claramente um nome técnico, também contestado por muitos. E Douglas, que jogou no Vasco? Mesmo fora de forma e com uma preguiça colossal, jogou muita bola no minguado Gigante da Colina de 2014. Então, afinal, qual é o ponto? Custa mais seguir a tendência atual ou voltar no tempo para tentar reencontrar a qualidade que se perdeu no meio do caminho. Particularmente, acho que todos têm espaço, mas para sermos juntos, que tal olharmos para a Alemanha que nos goleou em 2014? Nenhum deles é um chamado "10 clássico". Nem a Holanda, que também nos maltratou.

A escassez de um camisa 10 "de raiz" é um resultado das mudanças táticas do futebol ao longo do tempo, como aconteceu com os pontas. Porém, isso é transitório e muda com o passar das décadas. Para mim, parecia impossível ver um time jogando com três atacantes no Brasil durante os anos 90. Mas o tempo passou e isso se tornou comum de novo. O jogo evolui. Como garantir que não haverá grandes meias cadenciadores e "garçons" num futuro próximo? A grande questão é que estamos, no Brasil, perdidos em busca de respostas para nossa baixa de rendimento. É normal, em momentos de crise. Mas a resposta deve estar mesmo fora de campo, que é o que reflete tudo que acontece dentro dele. Por agora, aproveitemos os números 10 que temos e saibamos encontrar uma forma de aproveitá-los como merecem no futuro. Evoluções à parte, a bola sente saudade de ser tocada por esses craques.


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Livro de cabeceira
Começa nesta semana a Bienal do Livro e quero encontrar nela o livro que coloco aqui nesta semana - e muitos mais. Mas, nesta quinta, destaco "Metáforas em Campo: O Futebol Brasileiro e suas Representações no Jornalismo Popular", de Adilson Oliveira (Ed. Giostri, 164 pg.). Como futebol e imprensa têm muito mais a ver do que parece. Fica uma boa dica, para quem é da área ou não.








Jogando por música
Hoje, falemos de música relativamente recente, e de um xará meu: Gabriel o Pensador. "Brazuca", de 1997, é uma das canções que mais ouvi na infância, e que fala muito sobre futebol e sociedade, de um jeito todo especial, como é característica do Pensador. Até tema de jogo de PlayStation 2 essa música já foi... Não tem clipe, mas tem som.



Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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