11/09/2015 às 15h30m

E não é que o Norte da África também torce?

Fãs de países menos tradicionais encantam pela paixão nas arquibancadas

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Para esta semana, chegando mais uma vez aqui no FutRio.net, o tema é algo do que eu, você, todos fazemos parte: torcida. Porque torcer é um ato de nobreza e, principalmente, de fé por parte de quem acredita em um time. E cada um tem um jeito diferente de fazer isso. Normalmente, o que acetua essas ligeiras diferenças é a cultura de cada região ou país. E um local do mundo em especial vem ganhando fama internacional nos últimos anos quando o assunto é fanatismo: o Norte da África.

Por mais que, para nós, sul-americanos, os argentinos sejam uma referência, assim como ingleses, turcos e croatas para os europeus, não dá para fugir do fato de que o amor pelo futebol não tem fronteiras. E as imagens que tem rodado o mundo pelas redes sociais mostram estádios de Marroccos, Argélia, Tunísia, entre outros, sempre lotados e arquibancadas coloridas, com gente pulando e cantando em um tom tão elevado que cabe a pergunta de como conseguem cantar tão alto por tanto tempo. Encanta ver como esses torcedores se entregam ao amor ao clube.

O exemplo mais claro dessa paixão é a torcida do Raja Casablanca, a qual já pudemos conhecer no Mundial de Clubes, há dois anos atrás, quando o clube eliminou o Atlético Mineiro. O Raja foi fundado em 1949 como uma saída para a juventude da classe trabalhadora para mostrar seu descontentamento com a estrutura política marroquina, e também como oposição direta ao rival, Wydad, que tende a representar as classes médias. Esses sentimentos são destacados pelo emblema da águia, que sinaliza ideologias de força e resistência, enquanto a escolha do clube pela cor verde simboliza a esperança. Não à toa, é desde sempre o clube mais popular do país, mesmo sem nunca ter sido campeão nacional até 1988.

Sua torcida, os Ultras, fazem um verdadeiro carnaval no Estádio Mohammed V, em dia de jogo. Se diz que a Arquibancada Sul do maior campo do Marrocos se transforma na mais vibrante do mundo quando o Raja entra em campo. Difícil duvidar. Mas é claro que tem o outro lado: o Wydad também tem sua torcida, que é menos numerosa, mas não menos alegre. O clássico da cidade é uma verdadeira festa. E em vários outros jogos regionais no país é possível sentir esse clima de paixão aflorada no ar.

Mas não é só no Marrocos que as coisas funcionam desse jeito. No Egito, o Al-Ahly, maior clube africano do Século XX, tem uma torcida que corresponde a 70% da população do país. Nos jogos que acontecem no Cairo, a festa é imensa. Títulos são festejados sempre com grandes carreatas nas ruas. Na Argélia, o mesmo vale para a torcida do Kabylie, assim como para o Esperance e o Etoile du Sahel, na Tunísia. Muita gente se admira sobre como países com tão pouca tradição no futebol internacioal têm gente tão animada acompanhando os jogos. A resposta pode não ser tão simples, mas percebendo a personalidade expansiva do árabe, falante e sempre alegre, fica um pouco mais fácil encontrar um porquê.

É claro que tudo tem um ônus. Tanto fanatismo leva, muitas vezes, ao exagero e ao vandalismo. Não são poucos os registros de confusões em jogos grandes entre clubes nestes países. E as próprias mudanças políticas que tem acontecido na região nos últimos anos levam, muitas vezes, a atos violentos. A saída de presidentes que estavam havia mais de 30 anos em seus cargos, no Egito e na Tunísia, o advento da Primavera Árabe, entre outros eventos, são situações que servem como gatilho para que muitos usem o futebol como uma maneira de amplificar suas lutas, militâncias e até frustrações. E é quando tudo vira um barril de pólvora.

O mais chocante desses atos levou à morte de um jogador do argelino Kabylie, o camaronês Ebossé, de 25 anos. Quando saía de campo para ser substituído, foi atingido na cabeça por uma pedrada e caiu desacordado. O atacante, que tinha feito um gol minutos antes, morreu naquela mesma noite, no hospital. O estádio foi fechado pela federação para a disputa jogos de futebol. Não custa lembrar da tragédia de 2012, quando 74 torcedores do Zamalek, do Egito, morreram num jogo contra o Al-Ahly, o que fez até alguns jogadores decidirem abandonar a carreira profissional, por conta das cenas de horror que viram. A paixão, muitas vezes, leva à loucura e, assim como no Brasil, as consequências acabam sendo drásticas. Como tal, a punição para os vândalos locais também tem sido, o que também gera protestos em toda a região.

Voltando às coisas boas, as festas costumam ser memoráveis. Quando a Argélia classificou-se para as oitavas de final da última Copa do Mundo, pudemos ver bem como seus torcedores reagiram. Sempre sorridentes e com gargantas de aço, cantavam sempre o grito de guerra chiclete "one, two, three, viva l'Algérie" em homenagem a seu país. Enquanto isso, em Argel, os nativos vibravam nas ruas com direito a foguetes e rojões, transformando as ruas da capital em verdadeiras arquibancadas. Loucura total para uma equipe que conseguiu "apenas" um lugar entre as 16 melhores do planeta.

De mais a mais, é interessante notar como uma região do mundo de onde saem raros jogadores de grande nível internacional e poucas seleções que realmente brigam por títulos importantes dê uma importância tão grande para o futebol. O que só prova que a paixão por este esporte é universal e mostra também que as fronteiras para a paixão não existem. E fica uma curiosidade: qual seria o tamanho da festa com um clube do Norte da África campeão mundial ou uma seleção nacional entre as quatro melhores da Copa do Mundo? O futebol evolui, podemos descobrir em breve...

imageLivro de cabeceira
Na semana da Bienal do Livro, fui ao Riocentro e fiz uma verdadeira limpa nas prateleiras das editoras. Uma das aquisições que mais gostei de ter foi a de "Olho no Lance" (Ed. Best Seller, 320 pg.), de Wagner William. O livro tem como personagem central o grande Silvio Luiz, lendário narrador esportivo e personalidade da TV, ainda ativo nos dias atuais. Linguagem bacana e divertida, como é a do próprio Silvio.





Jogando por música
Uma legal, que eu não conhecia. Todo mundo sabe o que é o Polytheama, o time de Chico Buarque que conta com vários famosos em suas linhas. Pois Jorge Vercillo homenageou o esquadrão nesta canção, "Xote do Polytheama" (2007), que é nossa música da semana.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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