17/04/2014 às 19h46m

A íntima relação entre um grande escritor e o maior esporte do mundo

Gabriel Garcia Márquez partiu, mas era um apaixonado por futebol

Salve, galera. Mais um "A Cultura do Futebol", aqui no FutRio.net.

Confesso que não tinha uma ideia para a coluna de hoje, mas acabei a encontrando graças a um fato triste. Partiu hoje, 17 de abril, o grande Gabriel Garcia Márquez, escritor colombiano de 87 anos, Prêmio Nobel de Literatura em 1982 e um dos maiores escritores do nosso tempo. Confesso também que nunca fui um grande leitor de "Gabo", mas o pouco que conheço me faz respeitá-lo e entender o porquê de tanta tristeza na América Latina e no mundo inteiro por sua partida.

Pois bem, a questão é que Garcia Márquez, considerado por muitos o maior colombiano da história, tinha uma íntima ligação com o futebol. Não que tenha sido um craque com a bola nos pés ou algo assim - jogava como goleiro nas ruas de Aracataca, sua cidade natual - mas sua paixão por futebol servia como inspiração para belas obras. Antes mesmo de ser conhecido pelos livros e best-sellers que escreveu, Gabo escrevia crônicas num jornal de Barranquilla, cidade colombiana, e chegou a pagar tributo a um brasileiro famoso que passou por lá: Heleno de Freitas.

Garcia Márquez torcia pelo Junior de Barranquilla, clube onde jogava Heleno. Num belo dia, após a atuação do craque brasileiro, o escritor exaltou os feitos do atacante, que chegou à Colômbia sob desconfiança dos torcedores, mas que provou sua qualidade após uma boa vitória sobre o Millonarios, de Bogotá, por 2 a 1. Disse Gabo, na ocasião:

"E já em sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cáli, o dr. De Freitas mostrava-se capaz de conjugar perfeitamente os tempos simples do verbo "fazer". "Farei milagres", declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exatamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa atuação. Praticamente, disseram, o dr. De Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico."

Porém, a relação do colombiano com o futebol começou muito antes. Em uma de suas obras mais famosas, "O Juramento", Márquez conta como aconteceu sua primeira ida a um estádio e como tinha percebido, ainda cedo, que já era um torcedor fanático de sua equipe:

"E então resolvi ir ao estádio. Como era um encontro mais barulhento que todos os anteriores, tive que ir cedo. Confesso que nunca na minha vida tinha chegado tão cedo a qualquer outro lugar e que também nunca tinha saído tão esgotado... O primeiro instante de lucidez em que me dei conta de que tinha virado um torcedor intempestivo foi quando percebi que durante toda a minha vida eu tive algo do qual sempre me orgulhei e que agora me incomodava: o senso do ridículo. Agora entendo porque esses cavalheiros habitualmente tão engomados, se sentem como uma lula em sua própria tinta quando colocam, com tudo que têm direito, seus chapéuzinhos coloridos. É que com apenas esse gesto, viram automaticamente outras pessoas, como se o chapéu não fosse nada além do uniforme de sua nova personalidade."

É claro que Garcia Márquez é muito mais que futebol. Afinal, ele foi o criador do realismo mágico na literatura latino-americana, foi jornalista, correspondente, poeta, ativista político e muito mais. No entanto, como acontece com quase todo lantino-americano, o esporte mais bonito do mundo é sua paixão. Em um jogo da seleção de seu país, aliás, a bola foi chamada de "Macondo", o nome da aldeia em que se passa a obra "Cem Anos de Solidão", seu maior sucesso. Uma homenagem merecida a um craque das letras e aficionado pelo futebol.

Livro de cabeceira
Meu livro de hoje não é de Gabo, mas também tem uma série de histórias, estas sobre futebol. "Contos Brasileiros de Futebol" (Ed. LGE, 150 páginas) é um livro de Cyro de Matos, contando passagens - fictícias ou nem tanto - sobre todas as faces do nosso esporte. Vale leitura.

Jogando por música
Vale homenagear Gabo desta vez, lembrando da música de seu país. Na Colômbia, há um estilo musical na região do Caribe chamado "vallenato", muito baseado no som do acordeão. Certa vez, Márquez disse que "Cem anos de solidão" nada mais era que um vallenato de 350 páginas. Aqui, ouvimos "El Puñal", de Emiliano Zuleta.


Semana que vem, tem mais. Abraço a todos.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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