29/10/2015 às 21h29m

Quando o futebol e as guerras têm pontos em comum

Conflitos históricos já tiveram o esporte mais querido do mundo envolvido

Olá, amigos do FutRio.net.

Na coluna de hoje, iremos reviver um tema que já foi tratado aqui neste mesmo espaço, há uns dois anos atrás: as guerras. É claro que futebol e guerra não deveriam combinar, mas não dá para negar que há relações muito estreitas entre eles do que meramente as expressões idiomáticas, como "artilheiro", "bomba", "desarme" etc. Sobretudo no Século XX, foram muitos os jogadores que estiveram entrincheirados, ou que simplesmente se apresentaram às tropas em combates históricos.

Respeitando a ordem cronológica, devemos ir a 1914, ano em que estourou a Primeia Guerra Mundial. O confronto, sabemos, começou na Europa e envolveu as grandes potências do continente. Na Suíça, a maioria dos jogadores do país foi se alistar. O mesmo aconteceu na Escócia. Na Inglaterra, o futebol não tinha parado no começo da guerra, mas no fim do ano, formou-se o "Batalhão do Futebol", com jogadores dos principais clubes do país. Só no meio de 1915 é que o campeonato inglês parou.

Algumas histórias daquele combate relatam muita bravura. Lutando em uma tropa do exército britânico estava o escocês William Angus. Ele jogou pelo Celtic e era capitão do Wishaw Thistle quando foi convocado à guerra. Em um combate contra soldados alemães na França, Willie estava protegido, mas tentou resgatar um oficial britânico que estava perto das linhas inimigas. Levou mais de 40 tiros, mas salvou o parceiro. Ficou dois meses no hospital e, mesmo após perder um olho e um pé, sobreviveu. Recebeu do Rei, George V, a Cruz Vitória, a mais alta condecoração militar da Grã-Bretanha, e ainda virou presidente de um clube.

Mas é claro que também houve histórias tristes, como a de Walter Tull, segundo jogador negro a atuar na Premier League e o primeiro oficial negro na história do exército britânico. Meia de Tottenham e Northampton, lutou em seis batalhas. Na última, acabou abatido e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda assim, foi homenageado pelo Tottenham com o nome de um torneio disputado com o Rangers (ESC), clube em que estava pronto para jogar após a guerra. Outra baixa foi o goleiro galês Leigh Roose, ídolo do Stoke City, e que foi revolucionário ao atuar adiantado e confundir os atacantes nos pênaltis. Morreu aos 38 anos. O Hearts, time da Escócia, perdeu seis jogadores em combate. Se serve de consolo, no Natal de 1915, ingleses e franceses se juntaram aos alemães para um jogo de trégua, a chamada "Trégua de Natal". Um dos poucos momentos de paz em um conflito que matou 18 milhões de soldados.

O tempo passou e veio a Segunda Guerra. O futebol de países como Polônia e Alemanha sofreu por causa do combate, mas o primeiro país a sentir isso foi a Áustria, terra do lendário Mathias Sindelar. O craque atuou pela seleção no seu último jogo como país independente, contra a Alemanha, que tinha anexado o território austríaco. A Áustria venceu por 2 a 0. Sindelar, porém, se recusou a jogar pelo time alemão. Passou a ser perseguido pela Gestapo, a polícia secreta nazista, até que apareceu morto. A causa oficial foi acidente, asfixia por monóxido de carbono. Porém, houve indícios de que um oficial alemão teria sido subornado para alterar os documentos, afim de que o craque tivesse um funeral com honras de chefe de estado. De acordo com a lei nazista, alguém que tivesse sido assassinado ou se suicidado não merecia tais honras, o que faz muitos crerem que Sindelar, na verdade, se matou por conta do desgosto em ver seu país dominado por Hitler.

E o Brasil? Onde entra nisso? Bem, o país passou a participar do conflito já nos anos 40 e não foram poucos os jogadores de futebol que serviram como "pracinhas" da Força Expedicionária Brasileira. No Rio de Janeiro, o mais famoso da época era Perácio, craque do Flamengo e que jogara também pelo Botafogo. Ele foi motorista do Marechal Cordeiro de Farias e viu de perto a tomada de Monte Castelo, na Itália. Mas foi o Botafogo que mais cedeu jogadores à FEB. Um deles foi Geninho, um dos maiores artilheiros da História do clube. Enquanto estava na Itália, escapou por pouco de ser morto por conta de uma bomba; todos os seus companheiros morreram. Quando voltou ao Brasil, fez parte do time campeão carioac de 1948. Também representaram o Fogão no combate os jogadores Dunga, Walter, Matto Grosso, Marcos e Goulart.

Também representaram o futebol do Rio Bidon, do Madureira e do São Cristóvão, e Labatut, do Olaria. Mas foi, novamente, da Europa, que surgiram as histórias mais incríveis. É impossível falar da Segunda Guerra sem citar o "jogo da morte", em que prisioneiros ucranianos jogaram contra soldados nazistas e, mesmo ameaçados de morte caso vencessem, acabaram saindo vencedores por 5 a 3. Depois disso, quatro jogadores foram torturados e mortos, mas entraram para a história como herois. Mas o caso que mais me fascina em tudo isso envolve o homem da foto de nossa coluna de hoje. É um alemão, chamado Bert Trautmann. Ele foi um goleiro alemão, que só se profissionalizou aos 26 anos de idade. Antes, tinha servido na Segunda Guerra como oficial do exército alemão.

Ele se juntou à Força Aérea Alemã (Luftwaffe) em 1941, como operador de rádios. Depois, virou paraquedista e chegou a sargento, mas foi aprisionado em 1944, indo parar na Inglaterra. Fez trabalhos forçados até ser anistiado, por não ter ligação comprovada com os nazistas. Passou então a trabalhar numa fazenda e o futebol veio como forma de lazer. Goleiro, passou a se destacar nos jogos e acabou indo parar num clube amador. Sua fama, porém, foi tanta, que o Manchester City lhe ofereceu um contrato. Trautmann aceitou e tornou-se o goleiro titular dos Citizens, mas encontrou resistência de muitos torcedores. Afinal, Inglaterra e Alemanha tinham sido duros rivais na Segunda Guerra e ninguém aceitou de bom grado ter um ex-oficial inimigo no clube.

Foi quando o capitão do time, Eric Westwood, que também lutou na guerra, deu as boas-vindas ao goleiro ao dizer que "não havia guerra no vestiário". E, de fato, o alemão encontrou paz ao mostrar aos torcedores sua grande habilidade. Quando visitou Londres pela primeira vez, ao jogar contra o Fulham, levou uma vaia imensa dos torcedores locais e foi até chamado de "nazista" por eles. No jogo, o City perdeu por 1 a 0 e Trautmann foi o nome do jogo: acabou aplaudido de pé depois do jogo. Mas sua passagem mais marcante foi em 1956, quando ganhou a final da Copa da Inglaterra mesmo com o pescoço quebrado. A 15 minutos do fim, ele levou uma joelhada de um adversário e, como não havia substituições, ficou em campo. Mesmo com a visão turva, fechou o gol até o fim e levou a taça. Três dias depois, um raio X comprovou que ele tinha deslocado cinco vértebras da cervical. Um heroísmo digno dos melhores soldados.



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Livro de cabeceira
Fico com "Futebol & Guerra" (Ed. Jorge Zahar, 203 pg.), de Andy Dougan. Conta a história do "jogo da morte" entre ucranianos e alemães, sem os mitos que tornaram o fato mundialmente famoso e indo a fundo no que de fato aconteceu na história, que já vale um filme (seria filmaço, por sinal).







Jogando por música
Hoje, vou com "Pipes of Peace" (1983), do grande Paul McCartney, cujo clipe é uma homenagem a outro jogo de futebol durante a guerra, a Trégua de Natal. Grande som de um álbum igualmente ótimo.

Até semana que vem, aqui em "A Cultura do Futebol".

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02/10/2015 às 07h14m

O 'Rei da Voz' era do America. E foi até o último momento

Francisco Alves, genial cantor brasileiro, tinha o Mecão como uma paixão

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

A coluna de hoje é mais pessoal do que o normal por algumas razões. Ela retrata um acontecimento que fez aniversário na semana passada, mas que só me dei conta por três motivos: 1) acaso; 2) um achado incrível nos últimos dias; 3) uma memória, graças a Deus, privilegiada. Para começar, voltemos ao Brasil da primeira metade do Século XX. Naquela época, o meio de comunicação que mandava era o rádio; não havia TV. Internet... Nem pensar! Então, era claro que tudo de mais importante em termos de notícia, esporte e artes tivesse que passar pelo rádio. Foi justamente graças a ele que surgiu um dos maiores cantores que o país já teve: Francisco Alves, o "Rei da Voz".

Chico Viola, como era conhecido, nasceu no Rio de Janeiro, em 1898. E, como todo carioca, adorava futebol: era torcedor apaixonado do America. No entanto, teve uma morte trágica e precoce, justamente o evento que aniversariou há poucos dias (63 anos em 27 de setembro). Em 1952, voltava de São Paulo para o Rio, quando sua "baratinha", o carro esportivo da época, bateu de frente com um caminhão na Via Dutra, matando-o instantaneamente. Calava-se para sempre uma das vozes mais populares do país. Perdia o clube da Rua Campos Sales um ilustre torcedor, que não deixou de acompanhar o clube nem nas últimas horas.

Bem, essa história eu já conhecia de ouvir falar. Mas o que me levou a esmiuçá-la - e até ir mais além, como farei aqui hoje - foi uma série de coincidências que me envolveu de tal forma que não poderia deixar de escrever. Para começar, como citei ali em cima, o acaso. Foi coincidência, pura e simples, que o aniversário de morte do Chico tenha sido justamente na semana em que eu caçava alguns áudios antigos de rádio. Inicialmente, as antigas narrações de gols que uso no programa "FutRio na Geral", este que apresento na Rádio FutRio. Entre um Edson Luiz aqui, um Fiori Gigliotti ali, encontrei algo extremamente raro: o último programa do grande Francisco Alves na Rádio Nacional. A última aparição pública de um dos maiores artistas que já tivemos. Um documento histórico. Deixo aqui este presente a vocês, disponível para download via 4Shared:


Não hesitei em salvar no HD. Mas não sem antes ouvir a gravação. E o que escutei me surpreendeu mais ainda. Francisco Alves no seu melhor, em um show ao vivo no Largo da Concórdia, em São Paulo, para cinco mil pessoas, numa sexta à noite. Aqui, um parêntese: posso estar enganado, mas creio que quem o apresentou ao público naquela noite foi uma locutora iniciante, uma certa Hebe Camargo, então com só 23 anos... Pois bem, Chico cantou como nunca, mostrava um entrosamento incrível com o público. Falou, mais de uma vez que, mesmo carioca, era um "paulista de coração". Começou a audição com "Baía de Guanabara", em homenagem a seu Rio natal, e fechou com "São Paulo, Coração do Brasil", em reverência à capital paulista. Foi a última música que cantou em sua vida.

Francisco Alves foi de tudo em 54 anos. Até jogador de futebol. Quando garoto, atuou no Tupi, no Mangueira e até no então recém-fundado Bonsucesso. Logo viu que não era para ele... Antes, tinha sido engraxate, chapeleiro e virou até motorista de táxi. Era fã de Vicente Celestino e foi assistindo aos shows do grande artista que encontrou sua vocação. Aos 20 anos, lançou o primeiro disco. Daí em diante, foram mais de 500 - isso mesmo - e um sucesso estrondoso. Para se ter ideia de sua popularidade, foi ele que deu voz a algumas peças incríveis de nomes como Noel Rosa ("Fita Amarela") e Lupicínio Rodrigues ("Nervos de Aço"). Mas, em 1939, entrou de vez na História. Foi de Francisco a primeira gravação de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, a música que é o símbolo do nosso país. Chico Viola era tão incrível que foi também sua voz a ilustrar nosso primeiro jingle político. Em 1950, Getúlio Vargas concorria para voltar à Presidência da República. O escolhido para cantar a música de campanha, é claro, foi Chico. "Retrato do Velho" foi sucesso imediato. Getúlio voltou nos braços do povo e a marchinha foi a febre do Carnaval do ano seguinte.

Em 27 de setembro de 1952, um sábado, Chico deveria voltar ao Rio. Como sempre fazia, aliás. Não de avião, nem tão popular assim na época. Reza a lenda que tinha medo de acabar como Carlos Gardel, o grande cantor argentino de tango, morto num acidente aéreo, 17 anos antes. No domingo, ele cantaria no Rio e ainda concorreria em um páreo no Hipódromo da Gávea. Mas ele pretendia sair cedo de São Paulo. À tarde, o destino seria o Maracanã. America e Bangu se enfrentariam pelo Campeonato Carioca e o programa era absolutamente imperdível. Porém, como que por ironia do destino, seu Buick não ficou pronto. A saída foi voltar mais tarde. Já no caminho de volta, lá pelas 15h, lembrou-se do querido America. O cantor não hesitava em acompanhar o clube, mesmo longe, e veio ouvindo tudo pelo rádio. O Mecão fez 1 a 0, mas o Bangu virou e acabou vencendo por 4 a 2.

Quem estava a seu lado no carro era outro americano, Haroldo, grande amigo e que acompanhou o mágico show na noite anterior. Após o apito final, já no começo da noite, Chico acelerava pela Rio-São Paulo quando acabou atingido por um caminhão que vinha na direção contrária. O violento choque jogou Haroldo para fora do carro - ele sobreviveria ao acidente. Para o artista, foi pior: além da terrível batida, o automóvel se incendiou e explodiu pouco depois. Não houve escapatória para Francisco Alves, que morreu carbonizado. A maior voz do rádio se calou repentinamente e enlutou todo o país. O mesmo meio de comunicação que era inundado por suas músicas noticiava seu trágico desaparecimento. Até a terça-feira, dia 30, data de seu funeral, o Rio praticamente parou para chorar. O America estava de luto pela morte de seu torcedor mais famoso. No entanto, ficou a imagem de um fã fervoroso e apaixonado: americano até o fim.

Deixo para o finzinho a parte em que me referi à memória, lá no começo. Só me lembrei dessa história porque, anos atrás, ouvi de um célebre americano, o jornalista José Trajano, esta história. Faz tempo, mas é boa o suficiente para que eu nunca esquecesse. Isso já tem uns bons cinco anos, mais ou menos. Por essas coincidências, lembrei do fato e parei para pesquisar. E como valeu a pena. Ganhei mais um artista para admirar e mais uma história para contar. Valeu, Trajano.


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Livro de cabeceira
Uma das fontes que usei para detalhar o terrível acontecimento com Francisco Alves foi este livro: "Os Reis da Voz" (Ed. Casa da Palavra, 368 pgs.), de Ronaldo Conde Aguiar. Conta a história não só do Velho Chico, mas de outros ídolos de nossa música, como Nelson Gonçalves, Orlando Silva e tantos outros, a maioria esquecidos hoje em dia, mas que são verdadeiras lendas da nossa arte.







Jogando por música
Não dá para ser outro hoje, que não Francisco Alves. Escolho "Fracasso", de Mário Lago. Um musicão, de 1946.

Até semana que vem, aqui em FutRio.net.

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18/09/2015 às 23h33m

O rock e o futebol, sempre lado a lado

Em tempos de Rock in Rio, pontos interessantes em comum entre a música e o esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Nesta semana, em nossa coluna, falaremos de rock. Começa por esses dias o Rock in Rio, maior festival de rock do planeta - é o que dizem - e que traz alguns dos melhores artistas do mundo para nossas redondezas. É claro que não são poucas as bandas e os artistas consagrados que pisam os palcos cariocas e hoje falaremos sobre as particularidades que alguns deles têm com o futebol, envolvendo até outros que não estarão aqui, como o grande Ozzy Osbourne da foto.

Falando particularmente, gosto de rock, mas não me considero um grande conhecedor, longe disso até. É como aquele sujeito que não cozinha nada, mas "sabe comer de tudo". Como vou assistir a tudo de casa neste ano, mais uma vez, fica um pouco mais fácil falar sobre o festival sem a ilusão de estar lá, o que poderia me fazer desviar um pouco do caminho por causa da empolgação. Mas um pouquinho dela ainda existe por saber que grandes feras estão aqui ao lado.

Bem, falemos dos caras. Na primeira semana, já teremos os lendários ingleses do Queen. Como bons ingleses, é claro que têm uma forte ligação com futebol. Basta lembrar a famosa foto do falecido Freddie Mercury vestindo a camisa da Argentina ao lado de Diego Maradona: um era fã do outro. Uma coisa que pouca gente deve saber é que Freddie admitiu que estava pensando em futebol quando escreveu "We Are The Champions", um dos maiores sucessos da banda e que se tornou um hino da vitória dentro do esporte.

No domingo, duas lendas da música se apresentam: Elton John e Rod Stewart. O primeiro foi "apenas" dono do Watford, da Inglaterra, por 35 anos, e ajudou o clube a chegar à Primeira Divisão do seu país. Além de ser um grande torcedor do clube, chegou a colocar imagens de um jogo no videoclipe de "Nikita", um grande sucesso seu, dos anos 80. Já Rod também não esconde de ninguém sua paixão pelo futebol e é conhecido por chutar bolas de futebol na direção dos fãs durante o show. Escocês, é fanático pelo Celtic e já foi flagrado às lágrimas quando seu time ganhou de forma histórica do Barcelona, anos atrás.

Falando de artistas brasileiros, os Paralamas do Sucesso têm em Herbert Vianna um grande rubro-negro. Ele gravou o hino do clube para a Revista Placar, na década retrasada. Outro flamenguista é Pepeu Gomes, grande guitarrista e egresso dos Novos Baianos, grupo que nunca perdeu a chance de citar o futebol em suas músicas ou mesmo nomes de álbuns. Que o diga o grande "Novos Baianos Futebol Clube", que aliás é uma obra-prima. Além disso, vale lembrar que os talentosos músicos sempre tiveram relações de amizades com alguns dos nossos grandes craques, como Afonsinho e Nei Conceição, por exemplo.

Na outra semana do RiR, tem os noruegueses do A-Ha, que apesar de serem da Escandinávia, torcem pelo clube inglês Stoke City. Nos países por onde passam, sempre fazem questão de vestir a camisa da seleção local. Não se espantem, portanto, se o vocalista Morten Harket lançar a Canarinho no Palco Mundo... Também tem a estrela pop Rihanna, que esteve no Brasil durante a Copa do Mundo passada e tietou os alemães Götze e Podolski, campeões mundiais, embora não se saiba ao certo se a cantora barbadiana é uma grande adepta do esporte.

Fora do Rock in Rio, é possível apontar alguns outros astros ligados ao futebol, todos ingleses. Joe Elliott, vocalista do Def Leppard, torcedor do Sheffield United, os irmãos Gallagher, do Oasis, fanáticos pelo Manchester City, e Steve Harris, baixista do Iron Maiden e que torce pelo West Ham, mas que andou assistindo aos jogos do Vasco, assim como seus companheiros, na época do Rock in Rio III, em 2001. Mas é claro que a imagem que melhor ilustra o paralelo entre futebol e o festival é a capa de nossa coluna, com o eterno Ozzy Osbourne vestindo rubro-negro na primeira edição, em 1985. Com medo de eventuais vaias, Ozzy queria ganhar o público de qualquer jeito e "apelou". Acabou entrando para a história e "dando" ao Flamengo um novo torcedor-símbolo.

Livro de cabeceira
Prestigiando os amigos americanos da coluna, comprei "Tijucamérica" (Paralela, 232 pgs.), de José Trajano. Uma história sobrenatural contada pelo jornalista da ESPN - e ouvinte da Rádio FutRio - para fazer o Mecão novamente campeão, depois de tantos anos.

Jogando por música
Sendo breve e sem fugir do tema - e a foto - eis a performance de Ozzy Osbourne no Rock in Rio, de camisa do Flamengo e tudo, com "Crazy Train", em 1985.

Até semana que vem, no FutRio.net.

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11/09/2015 às 15h30m

E não é que o Norte da África também torce?

Fãs de países menos tradicionais encantam pela paixão nas arquibancadas

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Para esta semana, chegando mais uma vez aqui no FutRio.net, o tema é algo do que eu, você, todos fazemos parte: torcida. Porque torcer é um ato de nobreza e, principalmente, de fé por parte de quem acredita em um time. E cada um tem um jeito diferente de fazer isso. Normalmente, o que acetua essas ligeiras diferenças é a cultura de cada região ou país. E um local do mundo em especial vem ganhando fama internacional nos últimos anos quando o assunto é fanatismo: o Norte da África.

Por mais que, para nós, sul-americanos, os argentinos sejam uma referência, assim como ingleses, turcos e croatas para os europeus, não dá para fugir do fato de que o amor pelo futebol não tem fronteiras. E as imagens que tem rodado o mundo pelas redes sociais mostram estádios de Marroccos, Argélia, Tunísia, entre outros, sempre lotados e arquibancadas coloridas, com gente pulando e cantando em um tom tão elevado que cabe a pergunta de como conseguem cantar tão alto por tanto tempo. Encanta ver como esses torcedores se entregam ao amor ao clube.

O exemplo mais claro dessa paixão é a torcida do Raja Casablanca, a qual já pudemos conhecer no Mundial de Clubes, há dois anos atrás, quando o clube eliminou o Atlético Mineiro. O Raja foi fundado em 1949 como uma saída para a juventude da classe trabalhadora para mostrar seu descontentamento com a estrutura política marroquina, e também como oposição direta ao rival, Wydad, que tende a representar as classes médias. Esses sentimentos são destacados pelo emblema da águia, que sinaliza ideologias de força e resistência, enquanto a escolha do clube pela cor verde simboliza a esperança. Não à toa, é desde sempre o clube mais popular do país, mesmo sem nunca ter sido campeão nacional até 1988.

Sua torcida, os Ultras, fazem um verdadeiro carnaval no Estádio Mohammed V, em dia de jogo. Se diz que a Arquibancada Sul do maior campo do Marrocos se transforma na mais vibrante do mundo quando o Raja entra em campo. Difícil duvidar. Mas é claro que tem o outro lado: o Wydad também tem sua torcida, que é menos numerosa, mas não menos alegre. O clássico da cidade é uma verdadeira festa. E em vários outros jogos regionais no país é possível sentir esse clima de paixão aflorada no ar.

Mas não é só no Marrocos que as coisas funcionam desse jeito. No Egito, o Al-Ahly, maior clube africano do Século XX, tem uma torcida que corresponde a 70% da população do país. Nos jogos que acontecem no Cairo, a festa é imensa. Títulos são festejados sempre com grandes carreatas nas ruas. Na Argélia, o mesmo vale para a torcida do Kabylie, assim como para o Esperance e o Etoile du Sahel, na Tunísia. Muita gente se admira sobre como países com tão pouca tradição no futebol internacioal têm gente tão animada acompanhando os jogos. A resposta pode não ser tão simples, mas percebendo a personalidade expansiva do árabe, falante e sempre alegre, fica um pouco mais fácil encontrar um porquê.

É claro que tudo tem um ônus. Tanto fanatismo leva, muitas vezes, ao exagero e ao vandalismo. Não são poucos os registros de confusões em jogos grandes entre clubes nestes países. E as próprias mudanças políticas que tem acontecido na região nos últimos anos levam, muitas vezes, a atos violentos. A saída de presidentes que estavam havia mais de 30 anos em seus cargos, no Egito e na Tunísia, o advento da Primavera Árabe, entre outros eventos, são situações que servem como gatilho para que muitos usem o futebol como uma maneira de amplificar suas lutas, militâncias e até frustrações. E é quando tudo vira um barril de pólvora.

O mais chocante desses atos levou à morte de um jogador do argelino Kabylie, o camaronês Ebossé, de 25 anos. Quando saía de campo para ser substituído, foi atingido na cabeça por uma pedrada e caiu desacordado. O atacante, que tinha feito um gol minutos antes, morreu naquela mesma noite, no hospital. O estádio foi fechado pela federação para a disputa jogos de futebol. Não custa lembrar da tragédia de 2012, quando 74 torcedores do Zamalek, do Egito, morreram num jogo contra o Al-Ahly, o que fez até alguns jogadores decidirem abandonar a carreira profissional, por conta das cenas de horror que viram. A paixão, muitas vezes, leva à loucura e, assim como no Brasil, as consequências acabam sendo drásticas. Como tal, a punição para os vândalos locais também tem sido, o que também gera protestos em toda a região.

Voltando às coisas boas, as festas costumam ser memoráveis. Quando a Argélia classificou-se para as oitavas de final da última Copa do Mundo, pudemos ver bem como seus torcedores reagiram. Sempre sorridentes e com gargantas de aço, cantavam sempre o grito de guerra chiclete "one, two, three, viva l'Algérie" em homenagem a seu país. Enquanto isso, em Argel, os nativos vibravam nas ruas com direito a foguetes e rojões, transformando as ruas da capital em verdadeiras arquibancadas. Loucura total para uma equipe que conseguiu "apenas" um lugar entre as 16 melhores do planeta.

De mais a mais, é interessante notar como uma região do mundo de onde saem raros jogadores de grande nível internacional e poucas seleções que realmente brigam por títulos importantes dê uma importância tão grande para o futebol. O que só prova que a paixão por este esporte é universal e mostra também que as fronteiras para a paixão não existem. E fica uma curiosidade: qual seria o tamanho da festa com um clube do Norte da África campeão mundial ou uma seleção nacional entre as quatro melhores da Copa do Mundo? O futebol evolui, podemos descobrir em breve...

imageLivro de cabeceira
Na semana da Bienal do Livro, fui ao Riocentro e fiz uma verdadeira limpa nas prateleiras das editoras. Uma das aquisições que mais gostei de ter foi a de "Olho no Lance" (Ed. Best Seller, 320 pg.), de Wagner William. O livro tem como personagem central o grande Silvio Luiz, lendário narrador esportivo e personalidade da TV, ainda ativo nos dias atuais. Linguagem bacana e divertida, como é a do próprio Silvio.





Jogando por música
Uma legal, que eu não conhecia. Todo mundo sabe o que é o Polytheama, o time de Chico Buarque que conta com vários famosos em suas linhas. Pois Jorge Vercillo homenageou o esquadrão nesta canção, "Xote do Polytheama" (2007), que é nossa música da semana.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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03/09/2015 às 23h58m

Camisa 10: extrema necessidade ou puro fetiche?

Ausência de meias cerebrais no Brasil levanta discursos polêmicos

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Abrindo o mês de setembro para falar de campo e bola, que afinal de contas é o que todo mundo gosta. Um tema que tem sido muito debatido nos últimos anos por aqui é a questão do camisa 10. Não a numeração em si, como já falamos em outra edição desta mesma coluna, mas o jogador com a função de ser o número 10, ou seja, o meio-campista que arma o jogo, que pensa a partida, cadencia o ritmo e deixa os companheiros em boas condições de fazer gols. Para muitos, este é um artigo raro no futebol brasileiro.

De fato, fica difícil pensarmos em nomes realmente consagrados, até há quem diga que é um tipo de jogador que está em extinção. Mas a questão esbarra em outros fatores: o fracasso do futebol do Brasil em competições internacionais recentes, a baixa sensível do nível do jogo que se pratica por aqui, a falta de craques brasileiros em patamar internacional em comparação com as décadas passadas, a ausência de alguém que pense o jogo no meio-campo da Seleção. Será que tudo isso é causado pela falta de um verdadeiro grande camisa 10?

Para tentar responder, primeiro é preciso separar algumas questões. O número 10 é sagrado no Brasil. Não é só o numeral em si, como eu já disse, o que faz a gente tirar desse balaio verdadeiras divindades como Pelé, Rivelino, Zico, Ademir da Guia, Roberto Dinamite e tantos outros. E explico porque: estes jogadores não eram exatamente o que os argentinos chamam de "enganche", esse tipo de jogador cerebral que atua ali no meio como garçom; eram muito mais que isso, eram completos, porque jogavam na meia, no lado, no comando de ataque, na ponta de lança, em todas as posições e sempre com maestria. Parecido com o que foi Maradona, com o que é Messi, por mais que todos enverguem a mítica 10.

Dito isso, abre-se a reflexão sobre a necessidade de jogadores como esses no futebol brasileiro. O camisa 10 tem que ser inteligente, técnico e preciso. Mas é claro que ele tem seus defeitos. Não marca muito, é lento porque precisa olhar e pensar o jogo - por mais que jogue de cabeça erguida, passa até uma impressão de má vontade pelo ritmo que adota. Mas é seu estilo. O problema é que, com o nosso futebol em constante evolução, a participação de todo um time na marcação é vista como essencial. Afinal, este é o jogo moderno de hoje em dia. Então, jogar com um homem dentro dessas caracteristicas seria ter um jogador a menos dentro de campo?

Ao longo dos anos, nos acostumamos a ver grandes meio-campistas jogando no Brasil. Tivemos Petkovic, Alex, Marcelinho Carioca, Zinho, Djalminha e vários que se notabilizaram por ter, no meio-campo, seu habitat natural. E, por mais que a qualidade deles seja incontestável, por quantas vezes se falou na "preguiça" de nomes como eles? Ninguém contesta, hoje em dia, a qualidade do Alex, que voltou ao Brasil com seus 35 anos e comeu todo mundo com areia. Mas, e quando ia mal nos tempos de jovem? Era o "Alexotan", o "soneca", que dormia o jogo todo... Zinho foi um dos grandes meias do Flamengo e comeu a bola, já veterano, no Palmeiras. Ainda assim, foi chamado de "enceradeira", por teoricamente rodar, rodar e não sair do lugar.

Não precisamos ir tão longe no tempo, vejamos hoje - mesmo com uma grande discrepância no nível dos jogadores. O Corinthians tem Danilo, um de nossos grandes meias atualmente, mas acusado de ser "lento demais". No São Paulo, há Paulo Henrique Ganso, superestimado no início da carreira, mas claramente um nome técnico, também contestado por muitos. E Douglas, que jogou no Vasco? Mesmo fora de forma e com uma preguiça colossal, jogou muita bola no minguado Gigante da Colina de 2014. Então, afinal, qual é o ponto? Custa mais seguir a tendência atual ou voltar no tempo para tentar reencontrar a qualidade que se perdeu no meio do caminho. Particularmente, acho que todos têm espaço, mas para sermos juntos, que tal olharmos para a Alemanha que nos goleou em 2014? Nenhum deles é um chamado "10 clássico". Nem a Holanda, que também nos maltratou.

A escassez de um camisa 10 "de raiz" é um resultado das mudanças táticas do futebol ao longo do tempo, como aconteceu com os pontas. Porém, isso é transitório e muda com o passar das décadas. Para mim, parecia impossível ver um time jogando com três atacantes no Brasil durante os anos 90. Mas o tempo passou e isso se tornou comum de novo. O jogo evolui. Como garantir que não haverá grandes meias cadenciadores e "garçons" num futuro próximo? A grande questão é que estamos, no Brasil, perdidos em busca de respostas para nossa baixa de rendimento. É normal, em momentos de crise. Mas a resposta deve estar mesmo fora de campo, que é o que reflete tudo que acontece dentro dele. Por agora, aproveitemos os números 10 que temos e saibamos encontrar uma forma de aproveitá-los como merecem no futuro. Evoluções à parte, a bola sente saudade de ser tocada por esses craques.


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Livro de cabeceira
Começa nesta semana a Bienal do Livro e quero encontrar nela o livro que coloco aqui nesta semana - e muitos mais. Mas, nesta quinta, destaco "Metáforas em Campo: O Futebol Brasileiro e suas Representações no Jornalismo Popular", de Adilson Oliveira (Ed. Giostri, 164 pg.). Como futebol e imprensa têm muito mais a ver do que parece. Fica uma boa dica, para quem é da área ou não.








Jogando por música
Hoje, falemos de música relativamente recente, e de um xará meu: Gabriel o Pensador. "Brazuca", de 1997, é uma das canções que mais ouvi na infância, e que fala muito sobre futebol e sociedade, de um jeito todo especial, como é característica do Pensador. Até tema de jogo de PlayStation 2 essa música já foi... Não tem clipe, mas tem som.



Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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27/08/2015 às 22h42m

Técnicos negros: uma instituição rara no futebol

Cenário é restrito para treinador no Brasil, apesar de sucessos já comprovados

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Chegando nesta quinta-feira com mais uma coluna aqui no FutRio.net. Nesta semana, o tema é algo pouco comum no futebol, não só no brasileiro, mas no mundo inteiro: técnicos negros. O tema é polêmico. Muita gente pode pensar que é fácil achar esses personagens, mas tentarei mostrar nas próximas linhas que a situação não é assim tão fácil. Algumas razões são fáceis de explicar e de entender. Outras, nem tanto. Mas é uma marca da cultura de nosso esporte. Por mais que algumas figurinhas já sejam carimbadas dentro dos clubes cariocas e nacionais, um exercício mental já basta para compreender que, no geral, é raro ver afro-brasileiros à frente dos times grandes, ainda mais com continuidade e reconhecimento. O curioso é que jogadores negros não faltam. Mas, e os "professores"? Aqueles que têm a capacidade de comandar? Por que é que o ex-atleta - ou mesmo o estudioso do futebol - que é negro tem dificuldades para firmar-se?

Me inspirou a escrever sobre isso o caso de Cristóvão Borges, ex-técnico do Flamengo (que ilustra a coluna de hoje e foi clicado por Gilvan de Souza, fotógrafo do Fla e ex-companheiro de trabalho no LANCE!, a quem mando aqui um abraço). Pouco antes de deixar a Gávea, ele reclamou de racismo por parte de alguns torcedores. Houve quem duvidasse e até relativizasse. É verdade que ele foi muito criticado; para mim, mais pelos maus resultados do que por qualquer outra coisa. Mas é fato que ainda somos um país racista, talvez racista até demais para entender que treinadores negros são capazes de fazer sucesso de verdade em nossos clubes. E isso se explica pela ausência de nomes consagrados nessa condição.

Lembremos alguns que já treinaram equipes da Série A: Cristóvão, Lula Pereira, Silas, Jayme de Almeida, os falecidos Alcir Portella e Valmir Louruz. Dos anos 90 para cá, os mais relevantes. Muitos contestados, mas com belos resultados onde treinaram, até nos grandes: Cristóvão deu continuidade ao trabalho de Ricardo Gomes no Vasco com um vice brasileiro, Lula Pereira conquistou vários Estaduais, Jayme ganhou uma Copa do Brasil pelo Flamengo e Louruz, pelo Juventude. Então, por quê tanta desconfiança e falta de estabilidade, enquanto outros nomes de menos currículo são mais valorizados? Razões para isso não faltam, e uma delas é um velado, sutil, mas existente preconceito com treinadores negros por aqui.

Pare para pensar: quantos negros já treinaram a Seleção Brasileira? Antes de 1959 - pesquisei - não achei nenhum. O último foi Gentil Cardoso, uma lenda no Rio, mas à frente do Brasil só em cinco partidas. Viveu amargurado por nunca treinar a Canarinho num Mundial. Em nossos clubes, a raridade é menor, mas presente. Você pode pensar: "Mas e os citados antes, Cristóvão, Jayme, Andrade, Alcir?". É verdade que são/foram treinadores com bagagem interessante, mas não parece curioso que a maioria só seja conhecida por serem aqueles "bombeiros"? Os interinos que assumem após a saída do efetivo e que, por abraçarem a equipe, acabam dando certo mas nunca têm uma sequência, mesmo após um bom resultado conquistado? Basta ver que, mesmo bem sucedidos, esses caras têm vida curta nos clubes: ou ficam escanteados por lá mesmo, ou só rodam por times menores dali em diante.

Entendam: não quero aqui defender a qualidade destes nomes só pelos títulos. É claro que ela é discutível, como é discutível também a qualidade do técnico brasileiro em geral. O que se questiona é a falta de paciência e a reputação não tão grande deles entre dirigentes/empresários/conselheiros. Veja Andrade, primeiro negro campeão brasileiro como técnico, em 2009. Mantido no Flamengo, logo caiu. De lá para cá, nunca mais comandou nenhum time da Série A. Esteve até aqui na Segundona do Rio. Cristóvão viveu bons dias no Vasco e no Bahia, mas considerá-lo top de linha nunca foi cogitado. Hoje, nas Séries A e B do Brasileiro, só há dois negros em 40 clubes. E isso não é novo em nosso futebol. Para entender melhor, vamos destrinchar melhor a hierarquia do nosso esporte.

Fiquemos só nos clubes da Série A do Brasileiro. Nenhum deles tem um negro como presidente ou dirigente da alta cúpula de futebol. Como técnico, só um: o Grêmio, de Roger Machado. Ao chegar aos jogadores, aí o número explode. Nada menos que 247 atletas são negros ou pardos, uma média de mais de 12 por clube. E se formos para cargos com menos mídia, até mais propensos à "coadjuvância", como roupeiros e massagistas, a classe é quase toda composta por funcionários negros. E isso não é uma coincidência. Desde sempre, cargos de confiança, ou muito valorizados em nosso futebol, dificilmente são colocados nas mãos de gente de cor. Mas é claro que nenhum dirigente vai admitir isso; nem para a mídia, nem para si mesmo, de tão enraizada que é a coisa...

Se os números ainda não convencerem, voltemos então aos quase 250 jogadores negros da nossa Primeira Divisão: só 11 são goleiros. E a maioria dos clubes da Série A - também 11, por coincidência - não tem um só negro em suas balizas. O jogador negro, em linhas gerais, acaba sendo visto, superficialmente, como o que tem um vigor físico privilegiado, seja na força ou na agilidade. Mas a atitude de "pensar o jogo", organizar jogadas no meio-campo e chamar a responsablidade não costuma ser outorgada a um atleta negro. De cabeça, dá para lembrar de alguns, como Didi, Jairzinho, Mengálvio ou Djalminha, aqui no Brasil. É como se o negro fosse incapaz de exercer funções que requerem intelecto, o que, sabemos, é uma bobagem colossal. Mas é o pensamento vigente para muitos que comandaram e ainda comandam nossa estrutura futebolística.

Há quem diga que falta interesse do negro de fazer parte mais profundamente do universo do futebol e que isso explica a falta de nomes capazes de gerir situações. Serginho Chulapa, ex-atacante do Santos, é um deles. Não posso dizer que discordo, mas não me parece preciso avaliar assim, já que as portas se fecham tanto Brasil afora que é difícil ter certeza da procura por esses postos. Como diz o Thuram, grande zagueiro francês: "Se em algum momento você vê que, de fato, não há muitos treinadores como você, você não segue esse caminho. Vê que terá mais dificuldades, se desanima e leva referências de que não é possível". E material humano aqui não falta. Os cursos de treinadores têm um percentual de alunos superior à proporção de treinadores negros. Auxiliares técnicos, membros de comissão técnica, quase todo time tem. Não é exclusividade brasileira, mas se é verdade que o futebol reflete nossa sociedade, então ele acaba mesmo sendo restritivo aos negros. Então, qual é a solução?

Nos Estados Unidos, há um sistema de "cotas" no futebol americano em que todo time precisa entrevistar pelo menos um negro na hora de escolher um novo treinador. De lá para cá, dois deles já ganharam o Super Bowl. Não sei se a moda pegaria no Brasil. Acredito que a busca pelo conhecimento - como defende o Roque Júnior nesta entrevista - seja o caminho menos longo para que se chegue a um patamar de respeito e reconhecimento. Existe potencial, mas é preciso mais: quebrar as barreiras por si próprio. Esperar que elas caiam é inútil. Por enquanto, é curioso e triste que o maior esporte do mundo, que tem um negro como seu maior expoente - e outros tantos como os maiores - ainda seja tão restritivo com quem procura fazê-lo melhor. E tudo isso por causa da cor da pele.

Jogadores negros por clube da Série A do Brasileiro:
Avaí e Joinville - 16
Vasco, Cruzeiro, Flamengo, Internacional e Atlético (PR) - 15
Chapecoense - 14
Ponte Preta e Figueirense - 13
Goiás, Santos, Atlético (MG) e Fluminense - 12
Grêmio e Sport - 10
São Paulo - 9
Corinthians e Coritiba - 8
Palmeiras - 7

imageLivro de cabeceira
Hoje, destaco "Dali o Joca não perde" (Ed. Novaterra, 172 pg.), da autoria de Victor Kingma. Causos interessantíssimos e engraçados sobre o futebol, dos grandes estádios aos campos de várzea. Seja ficção ou realidade, vale por cada passagem. O prefácio é de ninguém menos que Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Uma forma luxuosa para abrir uma publicação que é ótima por si só.








Jogando por música
Pesquisando nesta semana sobre o futebol na MPB, achei uma canção interessante e que só ouvi uma vez, há quase 15 anos. Chama-se "Canhoteiro", de Zeca Baleiro. Uma figura pouco conhecida no Rio, mas reverenciada em São Paulo. Nascido no Maranhão, morreu jovem, mas marcou seu nome pelo São Paulo Futebol Clube e há quem considere uma das maiores injustiças do futebol sua não-ida ao Mundial da Suécia, em 1958. A canção, assim como o futebol do ponta-esquerda, é uma beleza. Aqui, na voz do santista baleiro e do tricolor Raimundo Fagner.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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20/08/2015 às 23h21m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhorias no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

Livro de cabeceira
imageHoje, cito "O Drible", de Sérgio Rodrigues (Cia. das Letras, 224 pg.). Uma ficção imperdível, numa história entre pai e filho (ah, essa paixão que passa de geração pra geração...) brigados a 25 anos, mas que se reaproximam com a iminente morte do patriarca da família. O que puxa esse reencontro? Grandes histórias dos anos dourados do futebol brasileiro. Imperdível e emocionante.





Jogando por música
Sem fugir do tema da coluna de hoje, fico com uma de Gilberto Gil. "Meio-de-campo", uma homenagem ao craque da foto que ilustra nosso espaço, Afonsinho, numa versão mais moderna, embora a canção date de 1973


Semana que vem, tem mais. Grande abraço!

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20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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