29/10/2015 às 21h29m

Quando o futebol e as guerras têm pontos em comum

Conflitos históricos já tiveram o esporte mais querido do mundo envolvido

Olá, amigos do FutRio.net.

Na coluna de hoje, iremos reviver um tema que já foi tratado aqui neste mesmo espaço, há uns dois anos atrás: as guerras. É claro que futebol e guerra não deveriam combinar, mas não dá para negar que há relações muito estreitas entre eles do que meramente as expressões idiomáticas, como "artilheiro", "bomba", "desarme" etc. Sobretudo no Século XX, foram muitos os jogadores que estiveram entrincheirados, ou que simplesmente se apresentaram às tropas em combates históricos.

Respeitando a ordem cronológica, devemos ir a 1914, ano em que estourou a Primeia Guerra Mundial. O confronto, sabemos, começou na Europa e envolveu as grandes potências do continente. Na Suíça, a maioria dos jogadores do país foi se alistar. O mesmo aconteceu na Escócia. Na Inglaterra, o futebol não tinha parado no começo da guerra, mas no fim do ano, formou-se o "Batalhão do Futebol", com jogadores dos principais clubes do país. Só no meio de 1915 é que o campeonato inglês parou.

Algumas histórias daquele combate relatam muita bravura. Lutando em uma tropa do exército britânico estava o escocês William Angus. Ele jogou pelo Celtic e era capitão do Wishaw Thistle quando foi convocado à guerra. Em um combate contra soldados alemães na França, Willie estava protegido, mas tentou resgatar um oficial britânico que estava perto das linhas inimigas. Levou mais de 40 tiros, mas salvou o parceiro. Ficou dois meses no hospital e, mesmo após perder um olho e um pé, sobreviveu. Recebeu do Rei, George V, a Cruz Vitória, a mais alta condecoração militar da Grã-Bretanha, e ainda virou presidente de um clube.

Mas é claro que também houve histórias tristes, como a de Walter Tull, segundo jogador negro a atuar na Premier League e o primeiro oficial negro na história do exército britânico. Meia de Tottenham e Northampton, lutou em seis batalhas. Na última, acabou abatido e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda assim, foi homenageado pelo Tottenham com o nome de um torneio disputado com o Rangers (ESC), clube em que estava pronto para jogar após a guerra. Outra baixa foi o goleiro galês Leigh Roose, ídolo do Stoke City, e que foi revolucionário ao atuar adiantado e confundir os atacantes nos pênaltis. Morreu aos 38 anos. O Hearts, time da Escócia, perdeu seis jogadores em combate. Se serve de consolo, no Natal de 1915, ingleses e franceses se juntaram aos alemães para um jogo de trégua, a chamada "Trégua de Natal". Um dos poucos momentos de paz em um conflito que matou 18 milhões de soldados.

O tempo passou e veio a Segunda Guerra. O futebol de países como Polônia e Alemanha sofreu por causa do combate, mas o primeiro país a sentir isso foi a Áustria, terra do lendário Mathias Sindelar. O craque atuou pela seleção no seu último jogo como país independente, contra a Alemanha, que tinha anexado o território austríaco. A Áustria venceu por 2 a 0. Sindelar, porém, se recusou a jogar pelo time alemão. Passou a ser perseguido pela Gestapo, a polícia secreta nazista, até que apareceu morto. A causa oficial foi acidente, asfixia por monóxido de carbono. Porém, houve indícios de que um oficial alemão teria sido subornado para alterar os documentos, afim de que o craque tivesse um funeral com honras de chefe de estado. De acordo com a lei nazista, alguém que tivesse sido assassinado ou se suicidado não merecia tais honras, o que faz muitos crerem que Sindelar, na verdade, se matou por conta do desgosto em ver seu país dominado por Hitler.

E o Brasil? Onde entra nisso? Bem, o país passou a participar do conflito já nos anos 40 e não foram poucos os jogadores de futebol que serviram como "pracinhas" da Força Expedicionária Brasileira. No Rio de Janeiro, o mais famoso da época era Perácio, craque do Flamengo e que jogara também pelo Botafogo. Ele foi motorista do Marechal Cordeiro de Farias e viu de perto a tomada de Monte Castelo, na Itália. Mas foi o Botafogo que mais cedeu jogadores à FEB. Um deles foi Geninho, um dos maiores artilheiros da História do clube. Enquanto estava na Itália, escapou por pouco de ser morto por conta de uma bomba; todos os seus companheiros morreram. Quando voltou ao Brasil, fez parte do time campeão carioac de 1948. Também representaram o Fogão no combate os jogadores Dunga, Walter, Matto Grosso, Marcos e Goulart.

Também representaram o futebol do Rio Bidon, do Madureira e do São Cristóvão, e Labatut, do Olaria. Mas foi, novamente, da Europa, que surgiram as histórias mais incríveis. É impossível falar da Segunda Guerra sem citar o "jogo da morte", em que prisioneiros ucranianos jogaram contra soldados nazistas e, mesmo ameaçados de morte caso vencessem, acabaram saindo vencedores por 5 a 3. Depois disso, quatro jogadores foram torturados e mortos, mas entraram para a história como herois. Mas o caso que mais me fascina em tudo isso envolve o homem da foto de nossa coluna de hoje. É um alemão, chamado Bert Trautmann. Ele foi um goleiro alemão, que só se profissionalizou aos 26 anos de idade. Antes, tinha servido na Segunda Guerra como oficial do exército alemão.

Ele se juntou à Força Aérea Alemã (Luftwaffe) em 1941, como operador de rádios. Depois, virou paraquedista e chegou a sargento, mas foi aprisionado em 1944, indo parar na Inglaterra. Fez trabalhos forçados até ser anistiado, por não ter ligação comprovada com os nazistas. Passou então a trabalhar numa fazenda e o futebol veio como forma de lazer. Goleiro, passou a se destacar nos jogos e acabou indo parar num clube amador. Sua fama, porém, foi tanta, que o Manchester City lhe ofereceu um contrato. Trautmann aceitou e tornou-se o goleiro titular dos Citizens, mas encontrou resistência de muitos torcedores. Afinal, Inglaterra e Alemanha tinham sido duros rivais na Segunda Guerra e ninguém aceitou de bom grado ter um ex-oficial inimigo no clube.

Foi quando o capitão do time, Eric Westwood, que também lutou na guerra, deu as boas-vindas ao goleiro ao dizer que "não havia guerra no vestiário". E, de fato, o alemão encontrou paz ao mostrar aos torcedores sua grande habilidade. Quando visitou Londres pela primeira vez, ao jogar contra o Fulham, levou uma vaia imensa dos torcedores locais e foi até chamado de "nazista" por eles. No jogo, o City perdeu por 1 a 0 e Trautmann foi o nome do jogo: acabou aplaudido de pé depois do jogo. Mas sua passagem mais marcante foi em 1956, quando ganhou a final da Copa da Inglaterra mesmo com o pescoço quebrado. A 15 minutos do fim, ele levou uma joelhada de um adversário e, como não havia substituições, ficou em campo. Mesmo com a visão turva, fechou o gol até o fim e levou a taça. Três dias depois, um raio X comprovou que ele tinha deslocado cinco vértebras da cervical. Um heroísmo digno dos melhores soldados.



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Livro de cabeceira
Fico com "Futebol & Guerra" (Ed. Jorge Zahar, 203 pg.), de Andy Dougan. Conta a história do "jogo da morte" entre ucranianos e alemães, sem os mitos que tornaram o fato mundialmente famoso e indo a fundo no que de fato aconteceu na história, que já vale um filme (seria filmaço, por sinal).







Jogando por música
Hoje, vou com "Pipes of Peace" (1983), do grande Paul McCartney, cujo clipe é uma homenagem a outro jogo de futebol durante a guerra, a Trégua de Natal. Grande som de um álbum igualmente ótimo.

Até semana que vem, aqui em "A Cultura do Futebol".

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02/10/2015 às 07h14m

O 'Rei da Voz' era do America. E foi até o último momento

Francisco Alves, genial cantor brasileiro, tinha o Mecão como uma paixão

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

A coluna de hoje é mais pessoal do que o normal por algumas razões. Ela retrata um acontecimento que fez aniversário na semana passada, mas que só me dei conta por três motivos: 1) acaso; 2) um achado incrível nos últimos dias; 3) uma memória, graças a Deus, privilegiada. Para começar, voltemos ao Brasil da primeira metade do Século XX. Naquela época, o meio de comunicação que mandava era o rádio; não havia TV. Internet... Nem pensar! Então, era claro que tudo de mais importante em termos de notícia, esporte e artes tivesse que passar pelo rádio. Foi justamente graças a ele que surgiu um dos maiores cantores que o país já teve: Francisco Alves, o "Rei da Voz".

Chico Viola, como era conhecido, nasceu no Rio de Janeiro, em 1898. E, como todo carioca, adorava futebol: era torcedor apaixonado do America. No entanto, teve uma morte trágica e precoce, justamente o evento que aniversariou há poucos dias (63 anos em 27 de setembro). Em 1952, voltava de São Paulo para o Rio, quando sua "baratinha", o carro esportivo da época, bateu de frente com um caminhão na Via Dutra, matando-o instantaneamente. Calava-se para sempre uma das vozes mais populares do país. Perdia o clube da Rua Campos Sales um ilustre torcedor, que não deixou de acompanhar o clube nem nas últimas horas.

Bem, essa história eu já conhecia de ouvir falar. Mas o que me levou a esmiuçá-la - e até ir mais além, como farei aqui hoje - foi uma série de coincidências que me envolveu de tal forma que não poderia deixar de escrever. Para começar, como citei ali em cima, o acaso. Foi coincidência, pura e simples, que o aniversário de morte do Chico tenha sido justamente na semana em que eu caçava alguns áudios antigos de rádio. Inicialmente, as antigas narrações de gols que uso no programa "FutRio na Geral", este que apresento na Rádio FutRio. Entre um Edson Luiz aqui, um Fiori Gigliotti ali, encontrei algo extremamente raro: o último programa do grande Francisco Alves na Rádio Nacional. A última aparição pública de um dos maiores artistas que já tivemos. Um documento histórico. Deixo aqui este presente a vocês, disponível para download via 4Shared:


Não hesitei em salvar no HD. Mas não sem antes ouvir a gravação. E o que escutei me surpreendeu mais ainda. Francisco Alves no seu melhor, em um show ao vivo no Largo da Concórdia, em São Paulo, para cinco mil pessoas, numa sexta à noite. Aqui, um parêntese: posso estar enganado, mas creio que quem o apresentou ao público naquela noite foi uma locutora iniciante, uma certa Hebe Camargo, então com só 23 anos... Pois bem, Chico cantou como nunca, mostrava um entrosamento incrível com o público. Falou, mais de uma vez que, mesmo carioca, era um "paulista de coração". Começou a audição com "Baía de Guanabara", em homenagem a seu Rio natal, e fechou com "São Paulo, Coração do Brasil", em reverência à capital paulista. Foi a última música que cantou em sua vida.

Francisco Alves foi de tudo em 54 anos. Até jogador de futebol. Quando garoto, atuou no Tupi, no Mangueira e até no então recém-fundado Bonsucesso. Logo viu que não era para ele... Antes, tinha sido engraxate, chapeleiro e virou até motorista de táxi. Era fã de Vicente Celestino e foi assistindo aos shows do grande artista que encontrou sua vocação. Aos 20 anos, lançou o primeiro disco. Daí em diante, foram mais de 500 - isso mesmo - e um sucesso estrondoso. Para se ter ideia de sua popularidade, foi ele que deu voz a algumas peças incríveis de nomes como Noel Rosa ("Fita Amarela") e Lupicínio Rodrigues ("Nervos de Aço"). Mas, em 1939, entrou de vez na História. Foi de Francisco a primeira gravação de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, a música que é o símbolo do nosso país. Chico Viola era tão incrível que foi também sua voz a ilustrar nosso primeiro jingle político. Em 1950, Getúlio Vargas concorria para voltar à Presidência da República. O escolhido para cantar a música de campanha, é claro, foi Chico. "Retrato do Velho" foi sucesso imediato. Getúlio voltou nos braços do povo e a marchinha foi a febre do Carnaval do ano seguinte.

Em 27 de setembro de 1952, um sábado, Chico deveria voltar ao Rio. Como sempre fazia, aliás. Não de avião, nem tão popular assim na época. Reza a lenda que tinha medo de acabar como Carlos Gardel, o grande cantor argentino de tango, morto num acidente aéreo, 17 anos antes. No domingo, ele cantaria no Rio e ainda concorreria em um páreo no Hipódromo da Gávea. Mas ele pretendia sair cedo de São Paulo. À tarde, o destino seria o Maracanã. America e Bangu se enfrentariam pelo Campeonato Carioca e o programa era absolutamente imperdível. Porém, como que por ironia do destino, seu Buick não ficou pronto. A saída foi voltar mais tarde. Já no caminho de volta, lá pelas 15h, lembrou-se do querido America. O cantor não hesitava em acompanhar o clube, mesmo longe, e veio ouvindo tudo pelo rádio. O Mecão fez 1 a 0, mas o Bangu virou e acabou vencendo por 4 a 2.

Quem estava a seu lado no carro era outro americano, Haroldo, grande amigo e que acompanhou o mágico show na noite anterior. Após o apito final, já no começo da noite, Chico acelerava pela Rio-São Paulo quando acabou atingido por um caminhão que vinha na direção contrária. O violento choque jogou Haroldo para fora do carro - ele sobreviveria ao acidente. Para o artista, foi pior: além da terrível batida, o automóvel se incendiou e explodiu pouco depois. Não houve escapatória para Francisco Alves, que morreu carbonizado. A maior voz do rádio se calou repentinamente e enlutou todo o país. O mesmo meio de comunicação que era inundado por suas músicas noticiava seu trágico desaparecimento. Até a terça-feira, dia 30, data de seu funeral, o Rio praticamente parou para chorar. O America estava de luto pela morte de seu torcedor mais famoso. No entanto, ficou a imagem de um fã fervoroso e apaixonado: americano até o fim.

Deixo para o finzinho a parte em que me referi à memória, lá no começo. Só me lembrei dessa história porque, anos atrás, ouvi de um célebre americano, o jornalista José Trajano, esta história. Faz tempo, mas é boa o suficiente para que eu nunca esquecesse. Isso já tem uns bons cinco anos, mais ou menos. Por essas coincidências, lembrei do fato e parei para pesquisar. E como valeu a pena. Ganhei mais um artista para admirar e mais uma história para contar. Valeu, Trajano.


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Livro de cabeceira
Uma das fontes que usei para detalhar o terrível acontecimento com Francisco Alves foi este livro: "Os Reis da Voz" (Ed. Casa da Palavra, 368 pgs.), de Ronaldo Conde Aguiar. Conta a história não só do Velho Chico, mas de outros ídolos de nossa música, como Nelson Gonçalves, Orlando Silva e tantos outros, a maioria esquecidos hoje em dia, mas que são verdadeiras lendas da nossa arte.







Jogando por música
Não dá para ser outro hoje, que não Francisco Alves. Escolho "Fracasso", de Mário Lago. Um musicão, de 1946.

Até semana que vem, aqui em FutRio.net.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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