27/08/2015 às 22h42m

Técnicos negros: uma instituição rara no futebol

Cenário é restrito para treinador no Brasil, apesar de sucessos já comprovados

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Chegando nesta quinta-feira com mais uma coluna aqui no FutRio.net. Nesta semana, o tema é algo pouco comum no futebol, não só no brasileiro, mas no mundo inteiro: técnicos negros. O tema é polêmico. Muita gente pode pensar que é fácil achar esses personagens, mas tentarei mostrar nas próximas linhas que a situação não é assim tão fácil. Algumas razões são fáceis de explicar e de entender. Outras, nem tanto. Mas é uma marca da cultura de nosso esporte. Por mais que algumas figurinhas já sejam carimbadas dentro dos clubes cariocas e nacionais, um exercício mental já basta para compreender que, no geral, é raro ver afro-brasileiros à frente dos times grandes, ainda mais com continuidade e reconhecimento. O curioso é que jogadores negros não faltam. Mas, e os "professores"? Aqueles que têm a capacidade de comandar? Por que é que o ex-atleta - ou mesmo o estudioso do futebol - que é negro tem dificuldades para firmar-se?

Me inspirou a escrever sobre isso o caso de Cristóvão Borges, ex-técnico do Flamengo (que ilustra a coluna de hoje e foi clicado por Gilvan de Souza, fotógrafo do Fla e ex-companheiro de trabalho no LANCE!, a quem mando aqui um abraço). Pouco antes de deixar a Gávea, ele reclamou de racismo por parte de alguns torcedores. Houve quem duvidasse e até relativizasse. É verdade que ele foi muito criticado; para mim, mais pelos maus resultados do que por qualquer outra coisa. Mas é fato que ainda somos um país racista, talvez racista até demais para entender que treinadores negros são capazes de fazer sucesso de verdade em nossos clubes. E isso se explica pela ausência de nomes consagrados nessa condição.

Lembremos alguns que já treinaram equipes da Série A: Cristóvão, Lula Pereira, Silas, Jayme de Almeida, os falecidos Alcir Portella e Valmir Louruz. Dos anos 90 para cá, os mais relevantes. Muitos contestados, mas com belos resultados onde treinaram, até nos grandes: Cristóvão deu continuidade ao trabalho de Ricardo Gomes no Vasco com um vice brasileiro, Lula Pereira conquistou vários Estaduais, Jayme ganhou uma Copa do Brasil pelo Flamengo e Louruz, pelo Juventude. Então, por quê tanta desconfiança e falta de estabilidade, enquanto outros nomes de menos currículo são mais valorizados? Razões para isso não faltam, e uma delas é um velado, sutil, mas existente preconceito com treinadores negros por aqui.

Pare para pensar: quantos negros já treinaram a Seleção Brasileira? Antes de 1959 - pesquisei - não achei nenhum. O último foi Gentil Cardoso, uma lenda no Rio, mas à frente do Brasil só em cinco partidas. Viveu amargurado por nunca treinar a Canarinho num Mundial. Em nossos clubes, a raridade é menor, mas presente. Você pode pensar: "Mas e os citados antes, Cristóvão, Jayme, Andrade, Alcir?". É verdade que são/foram treinadores com bagagem interessante, mas não parece curioso que a maioria só seja conhecida por serem aqueles "bombeiros"? Os interinos que assumem após a saída do efetivo e que, por abraçarem a equipe, acabam dando certo mas nunca têm uma sequência, mesmo após um bom resultado conquistado? Basta ver que, mesmo bem sucedidos, esses caras têm vida curta nos clubes: ou ficam escanteados por lá mesmo, ou só rodam por times menores dali em diante.

Entendam: não quero aqui defender a qualidade destes nomes só pelos títulos. É claro que ela é discutível, como é discutível também a qualidade do técnico brasileiro em geral. O que se questiona é a falta de paciência e a reputação não tão grande deles entre dirigentes/empresários/conselheiros. Veja Andrade, primeiro negro campeão brasileiro como técnico, em 2009. Mantido no Flamengo, logo caiu. De lá para cá, nunca mais comandou nenhum time da Série A. Esteve até aqui na Segundona do Rio. Cristóvão viveu bons dias no Vasco e no Bahia, mas considerá-lo top de linha nunca foi cogitado. Hoje, nas Séries A e B do Brasileiro, só há dois negros em 40 clubes. E isso não é novo em nosso futebol. Para entender melhor, vamos destrinchar melhor a hierarquia do nosso esporte.

Fiquemos só nos clubes da Série A do Brasileiro. Nenhum deles tem um negro como presidente ou dirigente da alta cúpula de futebol. Como técnico, só um: o Grêmio, de Roger Machado. Ao chegar aos jogadores, aí o número explode. Nada menos que 247 atletas são negros ou pardos, uma média de mais de 12 por clube. E se formos para cargos com menos mídia, até mais propensos à "coadjuvância", como roupeiros e massagistas, a classe é quase toda composta por funcionários negros. E isso não é uma coincidência. Desde sempre, cargos de confiança, ou muito valorizados em nosso futebol, dificilmente são colocados nas mãos de gente de cor. Mas é claro que nenhum dirigente vai admitir isso; nem para a mídia, nem para si mesmo, de tão enraizada que é a coisa...

Se os números ainda não convencerem, voltemos então aos quase 250 jogadores negros da nossa Primeira Divisão: só 11 são goleiros. E a maioria dos clubes da Série A - também 11, por coincidência - não tem um só negro em suas balizas. O jogador negro, em linhas gerais, acaba sendo visto, superficialmente, como o que tem um vigor físico privilegiado, seja na força ou na agilidade. Mas a atitude de "pensar o jogo", organizar jogadas no meio-campo e chamar a responsablidade não costuma ser outorgada a um atleta negro. De cabeça, dá para lembrar de alguns, como Didi, Jairzinho, Mengálvio ou Djalminha, aqui no Brasil. É como se o negro fosse incapaz de exercer funções que requerem intelecto, o que, sabemos, é uma bobagem colossal. Mas é o pensamento vigente para muitos que comandaram e ainda comandam nossa estrutura futebolística.

Há quem diga que falta interesse do negro de fazer parte mais profundamente do universo do futebol e que isso explica a falta de nomes capazes de gerir situações. Serginho Chulapa, ex-atacante do Santos, é um deles. Não posso dizer que discordo, mas não me parece preciso avaliar assim, já que as portas se fecham tanto Brasil afora que é difícil ter certeza da procura por esses postos. Como diz o Thuram, grande zagueiro francês: "Se em algum momento você vê que, de fato, não há muitos treinadores como você, você não segue esse caminho. Vê que terá mais dificuldades, se desanima e leva referências de que não é possível". E material humano aqui não falta. Os cursos de treinadores têm um percentual de alunos superior à proporção de treinadores negros. Auxiliares técnicos, membros de comissão técnica, quase todo time tem. Não é exclusividade brasileira, mas se é verdade que o futebol reflete nossa sociedade, então ele acaba mesmo sendo restritivo aos negros. Então, qual é a solução?

Nos Estados Unidos, há um sistema de "cotas" no futebol americano em que todo time precisa entrevistar pelo menos um negro na hora de escolher um novo treinador. De lá para cá, dois deles já ganharam o Super Bowl. Não sei se a moda pegaria no Brasil. Acredito que a busca pelo conhecimento - como defende o Roque Júnior nesta entrevista - seja o caminho menos longo para que se chegue a um patamar de respeito e reconhecimento. Existe potencial, mas é preciso mais: quebrar as barreiras por si próprio. Esperar que elas caiam é inútil. Por enquanto, é curioso e triste que o maior esporte do mundo, que tem um negro como seu maior expoente - e outros tantos como os maiores - ainda seja tão restritivo com quem procura fazê-lo melhor. E tudo isso por causa da cor da pele.

Jogadores negros por clube da Série A do Brasileiro:
Avaí e Joinville - 16
Vasco, Cruzeiro, Flamengo, Internacional e Atlético (PR) - 15
Chapecoense - 14
Ponte Preta e Figueirense - 13
Goiás, Santos, Atlético (MG) e Fluminense - 12
Grêmio e Sport - 10
São Paulo - 9
Corinthians e Coritiba - 8
Palmeiras - 7

imageLivro de cabeceira
Hoje, destaco "Dali o Joca não perde" (Ed. Novaterra, 172 pg.), da autoria de Victor Kingma. Causos interessantíssimos e engraçados sobre o futebol, dos grandes estádios aos campos de várzea. Seja ficção ou realidade, vale por cada passagem. O prefácio é de ninguém menos que Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Uma forma luxuosa para abrir uma publicação que é ótima por si só.








Jogando por música
Pesquisando nesta semana sobre o futebol na MPB, achei uma canção interessante e que só ouvi uma vez, há quase 15 anos. Chama-se "Canhoteiro", de Zeca Baleiro. Uma figura pouco conhecida no Rio, mas reverenciada em São Paulo. Nascido no Maranhão, morreu jovem, mas marcou seu nome pelo São Paulo Futebol Clube e há quem considere uma das maiores injustiças do futebol sua não-ida ao Mundial da Suécia, em 1958. A canção, assim como o futebol do ponta-esquerda, é uma beleza. Aqui, na voz do santista baleiro e do tricolor Raimundo Fagner.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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20/08/2015 às 23h21m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhorias no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

Livro de cabeceira
imageHoje, cito "O Drible", de Sérgio Rodrigues (Cia. das Letras, 224 pg.). Uma ficção imperdível, numa história entre pai e filho (ah, essa paixão que passa de geração pra geração...) brigados a 25 anos, mas que se reaproximam com a iminente morte do patriarca da família. O que puxa esse reencontro? Grandes histórias dos anos dourados do futebol brasileiro. Imperdível e emocionante.





Jogando por música
Sem fugir do tema da coluna de hoje, fico com uma de Gilberto Gil. "Meio-de-campo", uma homenagem ao craque da foto que ilustra nosso espaço, Afonsinho, numa versão mais moderna, embora a canção date de 1973


Semana que vem, tem mais. Grande abraço!

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20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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20/08/2015 às 23h20m

O quanto é importante um jogador com espírito contestador?

Poucos "peitaram" o sistema, mas são o que resta de esperança por melhoras no esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Mais uma semana na retomada da nossa coluna aqui no FutRio.net. Nesta quinta, começo esse papo baseado numa conversa que tive na semana passada com um jogador ainda jovem, mas dono de uma maturidade incrível: Luis Guilherme, ex-goleiro do Botafogo, que tem só 23 anos e atualmente está sem clube. Nessa entrevista, que você pode ler aqui, o cara demonstrou ter uma cabeça mais evoluída do que a maioria dos futebolistas profissionais que temos no país, independente da idade.

Diante disso, parei para fazer um exame rápido de consciência e contar quantos são os jogadores, no Brasil, capazes de desenvolver um espírito contestador, de que corre atrás dos seus direitos. Se não fosse pelo pessoal do "Bom Senso Futebol Clube" e pela notoriedade que ganharam, acho que que não encheria nem uma das mãos... A verdade é que o jogador de futebol que "peita" o sistema e faz valer aquilo que é seu direito - esteja escrito ou não - é uma raridade. E talvez isso explique o porquê de estarmos tão atrasados em termos de futebol, aquela coisa do "7x1 diário" que temos levado desde que os alemães nos amassaram em Belo Horizonte.

Por coincidência, foi justamente um alemão, Bertolt Brecht, que disse certa vez que "o pior analfabeto que existe é o analfabeto político" porque ele não se envolve com a política e com as melhorias que fazem bem para ele e para os outros. Não sabe como agir, não entende o processo e passa a ser massa de manobra. Posicionamentos políticos à parte, está aí uma grande verdade. E o jogador brasileiro faz parte disso, de forma geral, quando se cala diante de arbitrariedades dos nossos dirigentes, quando se acomoda frente aos desmandos e à incompetência de quem faz esporte visando só o dinheiro - que é importante, sim - e não entretenimento, o respeito a quem assiste e, principalmente, a quem joga.

Nada mais justo, então, do que lembrar dos antigos que fizeram valer essas lutas. Como não lembrar de Afonsinho? Em plena ditadura militar, se sentiu lesado pela diretoria do Botafogo, que via nele um "subversivo", justamente por não ter dom para vítima e, além de tudo, ser um contestador. Deixou crescer cabelo e barba e, mesmo com oito meses de contrato suspenso, sem receber, não perdeu a pose: foi ao Supremo Tribunal e, quase um ano depois do afastamento, ganhou o passe-livre, sendo o primeiro no país a conseguir tal feito. Tamanha foi sua importância para a época que isso só virou lei em 1998. E, ainda hoje, há quem chame Afonsinho de "garoto-problema"...

Vindo um pouco mais para cá no tempo, está Sócrates, o grande "Doutor". Pelo Flamengo, ele teve uma passagem curta, mas já desembarcou na Gávea consagrado como o homem que liderou a Democracia no Corinthians. Idealizou um movimento que pedia o voto igualitário de todos dentro do clube, incluindo os jogadores, nas decisões a serem tomadas, inclusive a liberdade de expressar seu posicionamento político. Isso tudo, mais uma vez, em plena ditadura. Hoje, por sorte, nosso contexto dentro do país é de liberdade; os anos de chumbo ficaram para trás e, mesmo que alguns ainda os queiram de volta, o cidadão tem a possibilidade de dizer e escolher o que quer. Mas, e dentro dos clubes de futebol?

É aí que lembro de algumas das palavras do Luis Guilherme: "(...)revoltar-se ou propor mudanças à estrutura que te emprega e que paga o seu salário é complicado. O jogador fica receoso, tem seu ganha-pão e não quer entrar em conflito para sair prejudicado depois. O grande problema do discurso político é que você tem uma ideia que sabe que vai te trazer benefícios, mas pelo medo de represálias, você acaba não abraçando essa ideia". Aí, a gente entende porque o nosso futebol não anda para frente. Nas mãos de uma galera pouco competente e compromissada, o jogador, que em 95% dos casos, não tem para onde correr - apesar de muitos milionários que vemos hoje no esporte - fica refém justamente dessa estrutura defasada que temos por aqui. E as mudanças ficam só no sonho.

É claro que culpar os jogadores pelo silêncio poderia ser o caminho mais fácil, mas é preciso entender o contexto de cada um. Deveria caber aos manda-chuvas uma mudança de postura. Ainda assim, há quem se junte, de maneira racional, para buscar os direitos não só deles mesmo, mas de uma classe inteira. Jogador de futebol deve ser a classe mais heterogênea do Brasil... Uma profissão que tem gente que anda de Audi, BMW e Mercedes, mas com uma maioria que precisa pegar ônibus e BRT para simplesmente chegar no treinamento do dia. É por isso que o pensamento político e esse envolvimento dos jogadores, que são trabalhadores como tantos outros no país, é essencial se a gente quer mudanças por aqui. Ser um só no meio da maré contrária realmente não dá resultado, mas correr atrás de informação, somada à realidade que se vive nos porões do futebol brasileiro, fica um pouco mais perto do suficiente para começar a sonhar com mudança.

Que os nossos futebolistas, sobretudo os mais bem sucedidos, saibam aproveitar a vida boa que a estabilidade financeira pode dar, mas que nunca se esqueçam que isso pode ser momentâneo e que, ao redor do país, tem parceiro passando dificuldade justamente por causa da falta de compromisso e de respeito de muita gente que comanda o esporte mais lindo do mundo. Que a sabedoria faça com que todos eles pensem um pouco mais em correr atrás da intelectualidade - dos livros, se for o caso, como Luis Guilherme - do que de badalação e cliques em redes sociais. Aí, dá para virar aquele incômodo placar de "7x1" que ainda está pairando na nossa cabeça, igual a uma nuvenzinha chuvosa sobre os persongens de desenho animado.

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13/08/2015 às 21h05m

Como nós e os europeus mexemos as peças ao longo das décadas?

Conceitos de "10 cerebral" ou "9 matador" têm tudo a ver com evoluções táticas

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol". Depois de longa ausência, voltamos aqui no FutRio.net a falar sobre alguns aspectos de dentro e fora de campo em relação ao esporte mais popular do mundo. Neste retorno, o tema de hoje tem a ver com questões táticas do nosso futebol. Mas o que isso teria a ver com a cultura do nosso esporte - você pode perguntar. Respondo: muito mais do que a galera imagina.

Para começar, a numeração no futebol não surgiu junto com o esporte. Isso é coisa do Século XX. Mesmo assim, faz muito tempo que ela existe. Para ser mais exato, desde 1928, com o Arsenal, na Inglaterra. O que pouca gente poderia prever naquela época é o quanto isso afetaria o jogo e a maneira de se montar times, ao longo das décadas seguintes. Num primeiro momento, isso só servia para identificar os atletas, a pedido das rádios inglesas. E assim tudo começou. Para faciitar, o sistema era igual ao do rugby, esporte "primo" do futebol. Do goleiro ao último atacante, a numeração era crescente, da direita para a esquerda, do 1 ao 11.

Na época da popularização dos números, o esquema era o 2-3-5. Os dois defensores eram 2 e 3, os três meio-campistas, 4, 5 e 6, e os atacantes numerados do 7 ao 11. Por exemplo, o ponta-direita era o 7, o atacante central, o 9, e o ponta-esquerda, o 11, mais ou menos como funciona hoje, de maneira popular. Na época, no entanto, essas posições não tinham nomes específicos. Os postos dos atletas eram de acordo com sua numeração, como "jogador número 8". Não havia variações táticas e todo mundo só jogava de um jeito. Mas é claro que isso mudaria ao longo do tempo.

Na própria Inglaterra, nos anos 40, surgiu o "WM", para fortalecer a defesa. Foi uma espécie de 3-2-2-3, que recebia esse nome porque o posicionamento dos atletas em campo, visto do ataque para a defesa, lembrava o desenho das duas letras. O sistema defensivo ganhou mais um jogador porque o camisa 5, o "center-half", juntou-se aos dois zagueiros. Lá na frente, o 8 e o 10 voltaram para compor o meio-campo para armar o jogo. Era o começo das mudanças até do senso tático destes jogadores. Por vezes, só um destes atacantes vinha atrás para jogar, o que popularizou a tática do 3-3-4.

E onde é que o Brasil entra nisso tudo? Justamente a partir daí. Isso porque a maneira como nós mexemos na "mesa de botão" foi diferente em relação aos europeus. É quando todos começam a impor sua filosofia de jogo e criar sua própria identidade futebolística. Lembra-se do atacante que recuava para compor o meio-campo? Isso cabia ao jogador que tinha mais técnica para armar o jogo. Daqueles três meio-campistas do 2-3-5, normalmente quem ia compor a zaga era o mais alto, o mais forte. E, com a evolução tática, a formação que passou a se popularizar a partir dos anos 50 foi o 4-2-4. É aí que cada escola de futebol passa a tornar seus números místicos para sempre.

Na Inglaterra, origem de tudo, os dois defensores solitários do passado viraram os laterais. Para a zaga, vieram o 5 e o 6, dois antigos meio-campistas. No meio, ficou o 4 e juntou-se a ele o número 8. E, no ataque, os pontas permaneceram como sendo 7 e 11, com os atacantes mais de área sendo 9 e 10. Aqui no Brasil, já não foi bem assim: o camisa 6, por exemplo, antigamente era o meia-esquerda e acabou recuando, virando o lateral canhoto. O 3 ficou na zaga junto com o 5, e o camisa 4 virou volante, junto com o 8. Em outros países europeus, outra variação. Enquanto o ataque permanecia intacto, a defesa tinha o miolo de zaga composto pelos números 4 a 5. Sobrou o 6 para o meio-campo. Aqui do lado, na Argentina, a maior discrepância em relação à nossa montagem. O camisa 2 foi para o meio da zaga, junto com o 6, com o camisa 4 no lado direito e o 3, no esquerdo. Sobrou na meia-cancha o camisa 5.

No ataque, apesar da numeração ter mudado pouco até aqui, os times passaram a ter um entendimento diferente quanto à numeração também ali, nos setores criativos. Por mais que jogassem quatro sempre no ataque, alguém sempre vinha um pouco mais atrás para ajudar na armação, para que não se congestionasse a área com mais que dois pontas e um jogador centralizado e goleador. Aqui na América do Sul, esse cara acabou sendo o camisa 10 (do qual sentimos tanta falta hoje em dia...). Na Europa, por vezes, foi o número 8 o responsável por isso. Mas é claro que a camisa 10 ficou estigmatizada por conta de Pelé, que apesar de ser o maior artilheiro que já houve, não era centro-avante: vinha de trás com sua qualidade fora de série para armar jogadas, mas era tão diferenciado que chutava de qualquer lugar e marcava. Foi nosso o primeiro grande "ponta-de-lança" no Brasil. Depois, viriam Zico, Roberto Dinamite, entre outros.

Mas foi na Argentina que acabou se criando o conceito de "10 clássico", que tanto falamos estar em extinção atualmente. Esse jogador recuou para o meio-campo e passou a ter uma função exclusiva de armar o jogo, sem penetrar muito na área e preferindo distribuir passes. Virou o "enganche", a balança entre o meio-campo e o ataque. Daí, surgiram, só no outro lado do Rio da Prata, craques como Maradona, Bochini, Ortega e Riquelme. Lá fora, Zidane, Gullit, Platini, Laudrup... Só craques. Na Inglaterra, porém, a 10 não ficou com esse jogador criativo. Ele compunha o ataque e, quando os britânicos passaram a jogar com duas linhas de quatro jogadores no meio, os pontas (7 e 11) recuaram para lá. Na frente, sobraram 9 e 10.

Essa característica do número 9 como o responsável por empurrar a bola para a rede ficou marcada por nós, brasileiros, que colocavam este jogador isolado no meio da área. E isso acabou sendo copiado por muitos países, como a Holanda e a própria Inglaterra. Aqui, quem recuou para o meio foi, num primeiro momento, só mesmo o camisa 10, na época dos três atacantes. Depois, o camisa 7 veio junto para aliar sua velocidade à cadência do companheiro no meio. Lá na frente, ficaram o 9 e o 11, números que ficaram de vez no imaginário nacional com a dupla Ronaldo e Romário, embora um camisa 7 (Bebeto) tenha sido o responsável por formar, com o Baixinho, um dos casais mais bem sucedidos do nosso futebol. O 9 do Tetra, em 1994, foi um meia, Zinho.

Em tempos de jogadores atuando com números como 37, 48 e 79, como atletas de futebol americano, admito sentir uma saudade dessa numeração antiga, ajuda a criar uma identidade com determinado jogador e também na identificação do estilo de cada um. Não é possível afirmar que a decadência do nosso futebol aqui no Brasil passa por isso, mesmo porque a Europa tem numeração fixa há vários anos e é quem mais nos tem dado lições em relação à evolução futebolística. De qualquer jeito, os velhos tempos deixam saudade...

Livro de cabeceira
Hoje, destaco um livro bacana que comprei quase que por acaso. "Nelson Motta - Resenha Esportiva" (Ed. Benvirá, 215 pg.) veio parar nas minhas mãos numa volta para casa, após uma manhã no Estádio Nilton Santos. Passei pelo shopping e fui à livraria, tinha um trocado no bolso, acabei levando essa obra do Nelson Motta que, como torcedor, esteve em vários Mundiais. As histórias de bastidores são divertidíssimas, quase folcóricas. Aliás, acabei comprando esse livro no lugar de um de Eduardo Galeano, mas isso é papo para outra coluna...

Jogando por música
Já que falamos de numeração na coluna de hoje, fica difícil não lembrar de "Camisa Dez", de Luiz Américo. Composta para a Copa do Mundo de 1974, a música questionava o então técnico Zagallo sobre o substituto de Pelé, que foi a grande ausência nacional no Mundial da Alemanha. O que prova que o tormento pela falta de um número 10 não é nada novo. A propósito, quem vestiu a mística camisa em terras germânicas foi Rivelino, do Corinthians.

Semana que vem, tem mais. Grande abraço.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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