18/09/2015 às 23h33m

O rock e o futebol, sempre lado a lado

Em tempos de Rock in Rio, pontos interessantes em comum entre a música e o esporte

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Nesta semana, em nossa coluna, falaremos de rock. Começa por esses dias o Rock in Rio, maior festival de rock do planeta - é o que dizem - e que traz alguns dos melhores artistas do mundo para nossas redondezas. É claro que não são poucas as bandas e os artistas consagrados que pisam os palcos cariocas e hoje falaremos sobre as particularidades que alguns deles têm com o futebol, envolvendo até outros que não estarão aqui, como o grande Ozzy Osbourne da foto.

Falando particularmente, gosto de rock, mas não me considero um grande conhecedor, longe disso até. É como aquele sujeito que não cozinha nada, mas "sabe comer de tudo". Como vou assistir a tudo de casa neste ano, mais uma vez, fica um pouco mais fácil falar sobre o festival sem a ilusão de estar lá, o que poderia me fazer desviar um pouco do caminho por causa da empolgação. Mas um pouquinho dela ainda existe por saber que grandes feras estão aqui ao lado.

Bem, falemos dos caras. Na primeira semana, já teremos os lendários ingleses do Queen. Como bons ingleses, é claro que têm uma forte ligação com futebol. Basta lembrar a famosa foto do falecido Freddie Mercury vestindo a camisa da Argentina ao lado de Diego Maradona: um era fã do outro. Uma coisa que pouca gente deve saber é que Freddie admitiu que estava pensando em futebol quando escreveu "We Are The Champions", um dos maiores sucessos da banda e que se tornou um hino da vitória dentro do esporte.

No domingo, duas lendas da música se apresentam: Elton John e Rod Stewart. O primeiro foi "apenas" dono do Watford, da Inglaterra, por 35 anos, e ajudou o clube a chegar à Primeira Divisão do seu país. Além de ser um grande torcedor do clube, chegou a colocar imagens de um jogo no videoclipe de "Nikita", um grande sucesso seu, dos anos 80. Já Rod também não esconde de ninguém sua paixão pelo futebol e é conhecido por chutar bolas de futebol na direção dos fãs durante o show. Escocês, é fanático pelo Celtic e já foi flagrado às lágrimas quando seu time ganhou de forma histórica do Barcelona, anos atrás.

Falando de artistas brasileiros, os Paralamas do Sucesso têm em Herbert Vianna um grande rubro-negro. Ele gravou o hino do clube para a Revista Placar, na década retrasada. Outro flamenguista é Pepeu Gomes, grande guitarrista e egresso dos Novos Baianos, grupo que nunca perdeu a chance de citar o futebol em suas músicas ou mesmo nomes de álbuns. Que o diga o grande "Novos Baianos Futebol Clube", que aliás é uma obra-prima. Além disso, vale lembrar que os talentosos músicos sempre tiveram relações de amizades com alguns dos nossos grandes craques, como Afonsinho e Nei Conceição, por exemplo.

Na outra semana do RiR, tem os noruegueses do A-Ha, que apesar de serem da Escandinávia, torcem pelo clube inglês Stoke City. Nos países por onde passam, sempre fazem questão de vestir a camisa da seleção local. Não se espantem, portanto, se o vocalista Morten Harket lançar a Canarinho no Palco Mundo... Também tem a estrela pop Rihanna, que esteve no Brasil durante a Copa do Mundo passada e tietou os alemães Götze e Podolski, campeões mundiais, embora não se saiba ao certo se a cantora barbadiana é uma grande adepta do esporte.

Fora do Rock in Rio, é possível apontar alguns outros astros ligados ao futebol, todos ingleses. Joe Elliott, vocalista do Def Leppard, torcedor do Sheffield United, os irmãos Gallagher, do Oasis, fanáticos pelo Manchester City, e Steve Harris, baixista do Iron Maiden e que torce pelo West Ham, mas que andou assistindo aos jogos do Vasco, assim como seus companheiros, na época do Rock in Rio III, em 2001. Mas é claro que a imagem que melhor ilustra o paralelo entre futebol e o festival é a capa de nossa coluna, com o eterno Ozzy Osbourne vestindo rubro-negro na primeira edição, em 1985. Com medo de eventuais vaias, Ozzy queria ganhar o público de qualquer jeito e "apelou". Acabou entrando para a história e "dando" ao Flamengo um novo torcedor-símbolo.

Livro de cabeceira
Prestigiando os amigos americanos da coluna, comprei "Tijucamérica" (Paralela, 232 pgs.), de José Trajano. Uma história sobrenatural contada pelo jornalista da ESPN - e ouvinte da Rádio FutRio - para fazer o Mecão novamente campeão, depois de tantos anos.

Jogando por música
Sendo breve e sem fugir do tema - e a foto - eis a performance de Ozzy Osbourne no Rock in Rio, de camisa do Flamengo e tudo, com "Crazy Train", em 1985.

Até semana que vem, no FutRio.net.

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11/09/2015 às 15h30m

E não é que o Norte da África também torce?

Fãs de países menos tradicionais encantam pela paixão nas arquibancadas

Olá, amigos de "A Cultura do Futebol".

Para esta semana, chegando mais uma vez aqui no FutRio.net, o tema é algo do que eu, você, todos fazemos parte: torcida. Porque torcer é um ato de nobreza e, principalmente, de fé por parte de quem acredita em um time. E cada um tem um jeito diferente de fazer isso. Normalmente, o que acetua essas ligeiras diferenças é a cultura de cada região ou país. E um local do mundo em especial vem ganhando fama internacional nos últimos anos quando o assunto é fanatismo: o Norte da África.

Por mais que, para nós, sul-americanos, os argentinos sejam uma referência, assim como ingleses, turcos e croatas para os europeus, não dá para fugir do fato de que o amor pelo futebol não tem fronteiras. E as imagens que tem rodado o mundo pelas redes sociais mostram estádios de Marroccos, Argélia, Tunísia, entre outros, sempre lotados e arquibancadas coloridas, com gente pulando e cantando em um tom tão elevado que cabe a pergunta de como conseguem cantar tão alto por tanto tempo. Encanta ver como esses torcedores se entregam ao amor ao clube.

O exemplo mais claro dessa paixão é a torcida do Raja Casablanca, a qual já pudemos conhecer no Mundial de Clubes, há dois anos atrás, quando o clube eliminou o Atlético Mineiro. O Raja foi fundado em 1949 como uma saída para a juventude da classe trabalhadora para mostrar seu descontentamento com a estrutura política marroquina, e também como oposição direta ao rival, Wydad, que tende a representar as classes médias. Esses sentimentos são destacados pelo emblema da águia, que sinaliza ideologias de força e resistência, enquanto a escolha do clube pela cor verde simboliza a esperança. Não à toa, é desde sempre o clube mais popular do país, mesmo sem nunca ter sido campeão nacional até 1988.

Sua torcida, os Ultras, fazem um verdadeiro carnaval no Estádio Mohammed V, em dia de jogo. Se diz que a Arquibancada Sul do maior campo do Marrocos se transforma na mais vibrante do mundo quando o Raja entra em campo. Difícil duvidar. Mas é claro que tem o outro lado: o Wydad também tem sua torcida, que é menos numerosa, mas não menos alegre. O clássico da cidade é uma verdadeira festa. E em vários outros jogos regionais no país é possível sentir esse clima de paixão aflorada no ar.

Mas não é só no Marrocos que as coisas funcionam desse jeito. No Egito, o Al-Ahly, maior clube africano do Século XX, tem uma torcida que corresponde a 70% da população do país. Nos jogos que acontecem no Cairo, a festa é imensa. Títulos são festejados sempre com grandes carreatas nas ruas. Na Argélia, o mesmo vale para a torcida do Kabylie, assim como para o Esperance e o Etoile du Sahel, na Tunísia. Muita gente se admira sobre como países com tão pouca tradição no futebol internacioal têm gente tão animada acompanhando os jogos. A resposta pode não ser tão simples, mas percebendo a personalidade expansiva do árabe, falante e sempre alegre, fica um pouco mais fácil encontrar um porquê.

É claro que tudo tem um ônus. Tanto fanatismo leva, muitas vezes, ao exagero e ao vandalismo. Não são poucos os registros de confusões em jogos grandes entre clubes nestes países. E as próprias mudanças políticas que tem acontecido na região nos últimos anos levam, muitas vezes, a atos violentos. A saída de presidentes que estavam havia mais de 30 anos em seus cargos, no Egito e na Tunísia, o advento da Primavera Árabe, entre outros eventos, são situações que servem como gatilho para que muitos usem o futebol como uma maneira de amplificar suas lutas, militâncias e até frustrações. E é quando tudo vira um barril de pólvora.

O mais chocante desses atos levou à morte de um jogador do argelino Kabylie, o camaronês Ebossé, de 25 anos. Quando saía de campo para ser substituído, foi atingido na cabeça por uma pedrada e caiu desacordado. O atacante, que tinha feito um gol minutos antes, morreu naquela mesma noite, no hospital. O estádio foi fechado pela federação para a disputa jogos de futebol. Não custa lembrar da tragédia de 2012, quando 74 torcedores do Zamalek, do Egito, morreram num jogo contra o Al-Ahly, o que fez até alguns jogadores decidirem abandonar a carreira profissional, por conta das cenas de horror que viram. A paixão, muitas vezes, leva à loucura e, assim como no Brasil, as consequências acabam sendo drásticas. Como tal, a punição para os vândalos locais também tem sido, o que também gera protestos em toda a região.

Voltando às coisas boas, as festas costumam ser memoráveis. Quando a Argélia classificou-se para as oitavas de final da última Copa do Mundo, pudemos ver bem como seus torcedores reagiram. Sempre sorridentes e com gargantas de aço, cantavam sempre o grito de guerra chiclete "one, two, three, viva l'Algérie" em homenagem a seu país. Enquanto isso, em Argel, os nativos vibravam nas ruas com direito a foguetes e rojões, transformando as ruas da capital em verdadeiras arquibancadas. Loucura total para uma equipe que conseguiu "apenas" um lugar entre as 16 melhores do planeta.

De mais a mais, é interessante notar como uma região do mundo de onde saem raros jogadores de grande nível internacional e poucas seleções que realmente brigam por títulos importantes dê uma importância tão grande para o futebol. O que só prova que a paixão por este esporte é universal e mostra também que as fronteiras para a paixão não existem. E fica uma curiosidade: qual seria o tamanho da festa com um clube do Norte da África campeão mundial ou uma seleção nacional entre as quatro melhores da Copa do Mundo? O futebol evolui, podemos descobrir em breve...

imageLivro de cabeceira
Na semana da Bienal do Livro, fui ao Riocentro e fiz uma verdadeira limpa nas prateleiras das editoras. Uma das aquisições que mais gostei de ter foi a de "Olho no Lance" (Ed. Best Seller, 320 pg.), de Wagner William. O livro tem como personagem central o grande Silvio Luiz, lendário narrador esportivo e personalidade da TV, ainda ativo nos dias atuais. Linguagem bacana e divertida, como é a do próprio Silvio.





Jogando por música
Uma legal, que eu não conhecia. Todo mundo sabe o que é o Polytheama, o time de Chico Buarque que conta com vários famosos em suas linhas. Pois Jorge Vercillo homenageou o esquadrão nesta canção, "Xote do Polytheama" (2007), que é nossa música da semana.


Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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03/09/2015 às 23h58m

Camisa 10: extrema necessidade ou puro fetiche?

Ausência de meias cerebrais no Brasil levanta discursos polêmicos

Alô, amigos de "A Cultura do Futebol".

Abrindo o mês de setembro para falar de campo e bola, que afinal de contas é o que todo mundo gosta. Um tema que tem sido muito debatido nos últimos anos por aqui é a questão do camisa 10. Não a numeração em si, como já falamos em outra edição desta mesma coluna, mas o jogador com a função de ser o número 10, ou seja, o meio-campista que arma o jogo, que pensa a partida, cadencia o ritmo e deixa os companheiros em boas condições de fazer gols. Para muitos, este é um artigo raro no futebol brasileiro.

De fato, fica difícil pensarmos em nomes realmente consagrados, até há quem diga que é um tipo de jogador que está em extinção. Mas a questão esbarra em outros fatores: o fracasso do futebol do Brasil em competições internacionais recentes, a baixa sensível do nível do jogo que se pratica por aqui, a falta de craques brasileiros em patamar internacional em comparação com as décadas passadas, a ausência de alguém que pense o jogo no meio-campo da Seleção. Será que tudo isso é causado pela falta de um verdadeiro grande camisa 10?

Para tentar responder, primeiro é preciso separar algumas questões. O número 10 é sagrado no Brasil. Não é só o numeral em si, como eu já disse, o que faz a gente tirar desse balaio verdadeiras divindades como Pelé, Rivelino, Zico, Ademir da Guia, Roberto Dinamite e tantos outros. E explico porque: estes jogadores não eram exatamente o que os argentinos chamam de "enganche", esse tipo de jogador cerebral que atua ali no meio como garçom; eram muito mais que isso, eram completos, porque jogavam na meia, no lado, no comando de ataque, na ponta de lança, em todas as posições e sempre com maestria. Parecido com o que foi Maradona, com o que é Messi, por mais que todos enverguem a mítica 10.

Dito isso, abre-se a reflexão sobre a necessidade de jogadores como esses no futebol brasileiro. O camisa 10 tem que ser inteligente, técnico e preciso. Mas é claro que ele tem seus defeitos. Não marca muito, é lento porque precisa olhar e pensar o jogo - por mais que jogue de cabeça erguida, passa até uma impressão de má vontade pelo ritmo que adota. Mas é seu estilo. O problema é que, com o nosso futebol em constante evolução, a participação de todo um time na marcação é vista como essencial. Afinal, este é o jogo moderno de hoje em dia. Então, jogar com um homem dentro dessas caracteristicas seria ter um jogador a menos dentro de campo?

Ao longo dos anos, nos acostumamos a ver grandes meio-campistas jogando no Brasil. Tivemos Petkovic, Alex, Marcelinho Carioca, Zinho, Djalminha e vários que se notabilizaram por ter, no meio-campo, seu habitat natural. E, por mais que a qualidade deles seja incontestável, por quantas vezes se falou na "preguiça" de nomes como eles? Ninguém contesta, hoje em dia, a qualidade do Alex, que voltou ao Brasil com seus 35 anos e comeu todo mundo com areia. Mas, e quando ia mal nos tempos de jovem? Era o "Alexotan", o "soneca", que dormia o jogo todo... Zinho foi um dos grandes meias do Flamengo e comeu a bola, já veterano, no Palmeiras. Ainda assim, foi chamado de "enceradeira", por teoricamente rodar, rodar e não sair do lugar.

Não precisamos ir tão longe no tempo, vejamos hoje - mesmo com uma grande discrepância no nível dos jogadores. O Corinthians tem Danilo, um de nossos grandes meias atualmente, mas acusado de ser "lento demais". No São Paulo, há Paulo Henrique Ganso, superestimado no início da carreira, mas claramente um nome técnico, também contestado por muitos. E Douglas, que jogou no Vasco? Mesmo fora de forma e com uma preguiça colossal, jogou muita bola no minguado Gigante da Colina de 2014. Então, afinal, qual é o ponto? Custa mais seguir a tendência atual ou voltar no tempo para tentar reencontrar a qualidade que se perdeu no meio do caminho. Particularmente, acho que todos têm espaço, mas para sermos juntos, que tal olharmos para a Alemanha que nos goleou em 2014? Nenhum deles é um chamado "10 clássico". Nem a Holanda, que também nos maltratou.

A escassez de um camisa 10 "de raiz" é um resultado das mudanças táticas do futebol ao longo do tempo, como aconteceu com os pontas. Porém, isso é transitório e muda com o passar das décadas. Para mim, parecia impossível ver um time jogando com três atacantes no Brasil durante os anos 90. Mas o tempo passou e isso se tornou comum de novo. O jogo evolui. Como garantir que não haverá grandes meias cadenciadores e "garçons" num futuro próximo? A grande questão é que estamos, no Brasil, perdidos em busca de respostas para nossa baixa de rendimento. É normal, em momentos de crise. Mas a resposta deve estar mesmo fora de campo, que é o que reflete tudo que acontece dentro dele. Por agora, aproveitemos os números 10 que temos e saibamos encontrar uma forma de aproveitá-los como merecem no futuro. Evoluções à parte, a bola sente saudade de ser tocada por esses craques.


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Livro de cabeceira
Começa nesta semana a Bienal do Livro e quero encontrar nela o livro que coloco aqui nesta semana - e muitos mais. Mas, nesta quinta, destaco "Metáforas em Campo: O Futebol Brasileiro e suas Representações no Jornalismo Popular", de Adilson Oliveira (Ed. Giostri, 164 pg.). Como futebol e imprensa têm muito mais a ver do que parece. Fica uma boa dica, para quem é da área ou não.








Jogando por música
Hoje, falemos de música relativamente recente, e de um xará meu: Gabriel o Pensador. "Brazuca", de 1997, é uma das canções que mais ouvi na infância, e que fala muito sobre futebol e sociedade, de um jeito todo especial, como é característica do Pensador. Até tema de jogo de PlayStation 2 essa música já foi... Não tem clipe, mas tem som.



Até semana que vem, aqui no FutRio.net.

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O Autor

Gabriel Andrezo é narrador, repórter e amante do esporte mais popular do mundo.

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