Em 16/02/2017 às 15 h55

Última vitória da Lusa sobre o Vasco originou o termo "zebra" no futebol

Confronto deste sábado tem a maior freguesia do Estadual: quase 53 anos


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Jornal dos Sports e Correio da Manhã

Sempre que se fala em Vasco x Portuguesa, é impossível dissociar a origem lusitana que une estes clubes quase irmãos. Porém, a história do confronto, que acontece neste sábado (18), é ainda mais rica do que suas origens. Ela remete a uma das grandes surpresas do futebol brasileiro e à fama de uma vitória que entrou de vez para a cultura nacional. Além de representar a maior freguesia entre os 16 times do Campeonato Carioca, o jogo que marcou o início dessa escrita foi, simplesmente, o que deu origem à "zebra" no futebol brasileiro. Há quase 53 anos, a Portuguesa batia o Vasco para entrar na História de muitas formas.

O resultado que assombrou o futebol carioca aconteceu em 1964, quando os insulanos venceram os cruz-maltinos por 2 a 1, resultado que só se repetiu outras duas vezes em 80 anos de confronto. Mas a história da "zebra" veio ainda antes da famosa vitória, que inspirou até a criação de um mascote para a Portuguesa. Naquele ano, o técnico rubro-verde era o famoso Gentil Cardoso, que já fôra campeão carioca com Vasco e Fluminense. Depois de surpreender o Bangu, com um empate na primeira rodada, Gentil fez o mesmo com os jornalistas. Frasista que era, foi veemente ao dizer que a Lusa poderia superar as expectativas e figurar entre os oito melhores do torneio.

– Nós não somos favoritos porque a imprensa arranjou os donos das vagas, já escalou São Cristóvão e Olaria, mas continuamos aqui, trabalhando escondidinhos e pode ser que dê zebra – disse, aos jornalistas, na noite de 8 de julho de 1964.

imageA referência tinha a ver com o jogo do bicho. Afinal, a zebra é um animal que não está presente nele. Ou seja, "dar zebra" era uma forma de retratar um resultado totalmente inesperado, com o qual ninguém contaria. No caso, a classificação da Portuguesa entre os oito melhores. Mas a verdade é que motivos para isso, Gentil tinha. Sua equipe tinha jogadores experientes, como os campeões Laerte e Sabará, grandes ídolos do Vasco, mas que já estavam em fim de carreira. E o resultado da estreia, o 0 a 0 diante do Bangu, mostrava isso. Porém, até a famosa vitória sobre o Vasco, muita coisa ainda aconteceria.

Gentil quase foi parar no Bangu

Se o empate da Lusa com o Bangu foi comemorado, o mesmo resultado fez o técnico alvirrubro, Denoni, ser despedido. A diretoria banguense, liderada por Castor de Andrade, procurou Gentil, que já tinha treinado o Bangu anteriormente, e fez um acordo com ele, que foi aceito. Na terça-feira, já era dado como certo que o treinador mudaria de casa. Porém, na última hora, Gentil voltou atrás. Os jogadores da Lusa o surpreenderam no treino de quarta e pediram para que ele ficasse. O presidente da Portuguesa, Amauri Medeiros, fez mais: cobriu a oferta do Bangu com CR$ 3 milhões de luvas e um salário de CR$ 300 mil. E Gentil ficou na Ilha do Governador.

Pois a "zebra" começou a aparecer, mesmo. Os 4 a 0 sobre o Madureira surpreenderam a todos. Na semana seguinte, a derrota para o campeão Flamengo foi vendida a preço caro: 2 a 1. Mas o grande dia ainda estava para chegar. Era 23 de julho, uma quinta-feira, quando as Laranjeiras receberiam Portuguesa e Vasco para mais um jogo do Carioca. A julgar pelo que já tinha acontecido na véspera, a Portuguesa parecia predestinada a vencer. Na quarta, o Santos, bicampeão sul-americano e mundial, era eliminado da Libertadores pelo Independiente (ARG). Na mesma noite, o Botafogo de Nilton Santos, Garrincha, Zagallo, Gérson e Manga, caiu para o Campo Grande em pleno Maracanã. Era mesmo a semana da zebra.

Antes do jogo, houve uma homenagem dos vascaínos a Sabará, agora na Lusa. Ponta-direita de sucesso no Vasco, foi três vezes campeão carioca e é um dos jogadores que mais atuou e marcou gols pelo clube. Porém, foi dispensado pelo técnico Duque no começo de 1964 e vendido à Portuguesa. Apesar de não se considerar magoado por como deixou São Januário e ter carinho pelo clube que o lançou, Sabará tinha naquela noite a chance de provar que, aos 33 anos, ainda tinha o que dar ao futebol. Ele e todos na Portuguesa compartilhavam do mesmo sentimento. Eram precisamente 21h15 quando Cláudio Magalhães apitou o começo da partida em Laranjeiras.

Vitória que entrou para a História

Antes mesmo do primeiro minuto, Mário chutou de longe e acertou o ângulo de Vágner, que nem pulou na bola. Era o primeiro gol do Vasco, dando a entender que a vitória cruz-maltina seria fácil. Mas a Lusa de Gentil não iria se render e quase empatou logo depois. O gol da igualdade só viria aos 25 minutos, quando Barbosinha se enrolou com a bola dentro da área e Inaldo a roubou, batendo com força, na saída de Lévis, deixando o placar em 1 a 1. No segundo tempo, Gentil, experiente, recuou seu time e passou a jogar no contra-ataque. E foi assim que veio a virada. Depois de uma grande confusão na área, Inaldo chutou em cima do goleiro e a bola sobrou fora da área, onde o lateral-esquerdo Tião, chutou, mas sem força. Lévis, deslocado, falhou e deixou a bola entrar: Portuguesa 2 a 1.

Ainda faltavam 26 minutos para o fim, mas o Vasco se desesperou. Na experiência de Sabará, prendendo a bola, e na velocidade de Zé Carlos puxando contra-ataques, a Portuguesa foi queimando o tempo e viu tudo ficar mais fácil quando o vascaíno Brito foi expulso. No apito final, a festa foi geral entre os insulanos. Afinal, era a vitória que mantinha a Portuguesa entre os ponteiros da competição, enquanto o Vasco saía chateado, mas sem sequer muito tempo para lamentar: viajaria logo na manhã seguinte para enfrentar o Nacional (URU), num amistoso em Montevidéu. Para a Lusa, a comemoração iria varar a madrugada.

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O vestiário das Laranjeiras se encheu de jornalistas, em meio à festa dos jogadores. Os aplausos recebidos na saída de campo viraram gritos e cânticos ensurdecedores quando a comemoração começou. Em meio a tudo isso, surgiu Gentil Cardoso, para sacramentar o sucesso de uma expressão que permanece até hoje o imaginário do futebol:

– Eu não disse que ia dar zebra? Que vai dar muita zebra ainda neste campeonato? Pois é. Acharam graça, zombaram , achando que era vigarice do Preto Velho, que o Preto Velho estava era enrolando, fazendo graça. Agora, aguentem.

Coletiva pós-jogo teve ares de "aula"

Mas o show ainda não tinha terminado. A coletiva de Gentil, após o jogo, teve ares de aula para os inúmeros jornalistas que ali estavam. Aquele treinador, já no alto dos 58 anos de idade, mais de 30 de carreira, e para muitos um nome ultrapassado no futebol, voltava a provar que seu ponto de vista estava correto dentro das quatro linhas. Fora delas, não largou seu estilo carismático e de frases de efeito, que pareciam brotar no chão após o histórico feito.

– O que vocês da imprensa estão custando a entender é que este campeonato não é mais igual aos que passaram. Os pequenos entravam no campeonato como se fossem brincar de piquenique. Qualquer resultado servia. Tanto dava perder como ganhar. Ninguém levava susto, ninguém tinha que se amofinar. Bicho que dava um ano, dava em todos os anos. Agora é diferente. Agora há uma perspectiva, um objetivo sério a perseguir. Há uma vaca que pode cair no brejo, há uma guerra pelo pão nosso de cada dia. Pão que é o pão dos nossos filhos. Não é conversa, não. Isso é uma guerra santa e o futebol carioca precisava dela. Ela veio tarde, mas veio - pregava, enquanto explicava o porquê de resultados tão surpreendentes:

image– Não adianta inventar ou cismar que é inventor. Em futebol, quem inventa não é inventor nenhum. Futebol não é ciência oculta, mas é uma ciência como qualquer outra, que requer miolo, cabeça, competência, maturidade e conhecimento. O campeonato não é mais jogado de cima para baixo. Se os times de cima não guardarem bem o galho, vai ser a mais espetacular derrapagem do futebol brasileiro. Eles vão pagando caro pela falta de humildade e providências que nós, pobres, tomamos enquanto eles brincavam de passear pelo mundo. A história poderá fazer justiça aos que lutam.

No fim, a profecia de Gentil Cardoso se cumpriu. A Portuguesa terminou em oitavo, garantindo-se no campeonato do ano seguinte e livrando-se do rebaixamento. São Cristóvão e Olaria, antes favoritos, desceram. Dos últimos seis jogos do campeonato, a Lusa venceu quatro. O lendário treinador morreria apenas seis anos, mas já tendo deixado seu nome na história do futebol. A última vitória lusitana sobre o Vasco pode fazer mais de meio-século, mas é cercada por uma saga que tem tudo a ver com a própria Portuguesa e por um espírito que segue vagando, prestes a voltar à tona para assombrar os grandes. É claro, o espírito da zebra.

O primeiro Vasco x Portuguesa em 12 anos acontece neste sábado, em São Januário. A Rádio FutRio transmite, às 17h.

Tags: Vasco, Portuguesa

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