Em 24/04/2017 às 08 h32

Há 85 anos, pelo Bonsucesso, Leônidas fazia seu primeiro gol de bicicleta

Na época, jovem craque rubro-anil anotou sua primeira obra-prima na carreira


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: A Noite, Jornal dos Sports e Vitor Costa (FutRio)

Há exatamente 85 anos, poucas pessoas testemunharam a primeira grande obra-prima de um menino de 18 anos, no modesto campo da Estrada do Norte. O garoto era Leônidas da Silva, o maior craque brasileiro de seu tempo e o lance que o marcou foi nada menos que a bicicleta, jogada que imortalizou o eterno atacante, no começo de sua carreira, ainda pelo Bonsucesso. Num jogo diante do Carioca, pelo campeonato da cidade, o "Diamante Negro" fez, pela primeira vez, a jogada considerada a mais bonita do futebol. Os registros são poucos, mas aquele era o começo de uma história marcante e fundamental para a identidade do futebol brasileiro.

A bicicleta, o chute por cima da cabeça com o corpo inclinado para trás, não é uma invenção de Leônidas, já que a primazia é atribuída ao espanhol naturalizado chileno Ramón Unzaga, que executou a jogada pela primeira vez em 1914, jogando pela Escuela Chorera. Por isso, o lance foi inicialmente chamado de "chorera". Os uruguaios, maravilhados com a já famosa jogada de Unzaga, batizaram o lance de "trizaga", por entenderem que era um gol que valia por três. Mas o nome que pegou mesmo foi "chilena", para lembrar a origem do autor do gol. Aliás, é assim que se segue chamando o lance em toda a América Latina até os dias atuais.

No Brasil, dez anos antes de Leônidas dar sua primeira "bike", foi outro gênio do futebol brasileiro quem a executou pela primeira vez em solo tupiniquim. Petronilho de Brito, craque de vários times do país, marcou de bicicleta num empate entre Minas Gerais, sua equipe, e Vila Isabel, por 4 a 4. Há até quem diga que o próprio Leônidas admitiu ter se inspirado em Petronilho para fazer a jogada. Mas a verdade é que o lance se popularizou com o menino nascido no Rio de Janeiro, que mais tarde repetiria a acrobacia por Flamengo, São Paulo, Seleção Brasileira, entre outros.

A História foi escrita em Bonsucesso

Naquele 24 de abril de 1932, quando Leônidas da Silva fez seu primeiro gol de bicicleta, ele defendia o Bonsucesso, onde começou sua carreira profissional. O time estreava uma camisa nova, jogando de camisa azul e gola vermelha. O jogo era contra o Carioca e, na primeira partida entre as equipes, naquele ano, o placar tinha terminado com uma grande goleada do Cesso por 8 a 3. Se o time da Gávea pretendia dar o troco, acabou passando longe disso. Na Estrada do Norte, como era chamado o campo do Rubro-Anil, quem dominou foi o Bonsucesso. Os donos da casa fizeram 1 a 0 ainda no primeiro tempo, com o ponta-direita Carlinhos.

imageMas o lance que entrou para a História aconteceu pouco depois. Leônidas, o habilidoso atacante de apenas 18 anos, acertou um chute acrobático, por cima da cabeça, que vazou a meta do goleiro Princeza. Nos jornais da época, nenhuma menção em especial ao lance foi feita, sequer o apelido "bicicleta", talvez pela raridade do fato não permitir descrições muito claras. Completaram o placar Prego, Carlinhos e Miro, para o Cesso, com Anthero e Jarbas anotando os gols do Carioca.

No fim, o placar marcava 5 a 2 para o Cesso, mas o momento mais marcante já tinha acontecido bem antes do apito final. A equipe rubro-anil, naquela tarde de domingo, alinhou com Durval; Cozinheiro e Heitor; Loló, Otto e Cláudio; Carlinhos, Prego, Gradim, Leônidas e Miro. E aquele gol acabou colocando Leônidas, de vez, no rol dos grandes craques do futebol carioca, embora fosse ainda muito jovem. Naquela época, era normal que os jogadores recebessem suas primeiras oportunidades num time principal só a partir dos 20 anos. O Diamante Negro era titular do Cesso desde os 17.

Leônidas era genial, mas também genioso. Numa vitória sobre o America, naquele mesmo 1932, se envolveu numa polêmica com torcedores rubros. Ao se preparar para um escanteio, teria feito um gesto obsceno, que fez um fã invadir o campo para tomar satisfações. Depois, a polícia entrou no gramado e o jogo ficou paralisado. O árbitro se recusou a expulsar Leônidas, mas o craque se retirou espontaneamente antes de ser agredido por Sylvio, goleiro do America. Mesmo sem Leônidas, o Bonsucesso venceu por 4 a 2 e o ídolo do Cesso disse estava apenas "levantando o calção", culpando a má-fé do America pela polêmica.

Ao fim daquele ano, o Bonsucesso terminou em oitavo lugar no Carioca e Leônidas foi o artilheiro do time, com 11 gols. Mas foi aquele lance, diante do Carioca, com poucas pessoas nas arquibancadas da Estrada do Norte, que começou a imortalizá-lo. Aliás, campo este que, nos dias atuais, é chamado de Estádio Leônidas da Silva, justamente o local em que o gênio deu seus primeiros passos dentro do futebol. E as primeiras bicicletas também.

Clube homenageou craque neste ano

Em 2017, o Bonsucesso não se esqueceu de homenagear Leônidas. Durante a seletiva do Campeonato Carioca, neste ano, o time entrou em campo com camisas que remetiam à primeira bicicleta do gênio, além das datas "1932 - 2017", ao lado da silhueta de Leônidas executando a jogada. A homenagem parece ter dado certo, já que o time da Zona Norte acabou evitando o rebaixamento para a segunda divisão pelo quarto ano consecutivo.

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O Bonsucesso, além de fazer a menção à "bike", também cita o nome de Leônidas em seu hino (E lá surgiu um jogador sensacional / Surgiu Leônidas, o maioral), além de batizar seu estádio com o nome do craque, no fim dos anos 90. Motivos para isso não faltam, já que além de ter revelado um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, o clube ainda pôde se orgulhar, graças a Leônidas, de ceder seu primeiro atleta à Seleção Brasileira.

Nem a saída controvertida do craque do Bonsucesso, no começo de 1933, por se juntar ao Andaraí em uma excursão, fez o Rubro-Anil esquecer de seus serviços. O craque ainda jogaria por Peñarol (URU), Vasco, SC Brasil, Botafogo, Flamengo e São Paulo. Na Seleção, disputou a Copa do Mundo de 1938, onde foi o artilheiro com oito gols. Depois de que pendurou as chuteiras, tornou-se um respeitado comentarista esportivo. Morreu aos 90 anos, em 2004, com seu nome definitivamente marcado na história do futebol.

Tags: Bonsucesso

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