Em 23/05/2017 às 08 h07

Os 60 anos de Marinho, um craque imortal na história do Bangu

Altos e baixos marcaram a vida de um dos maiores jogadores do futebol carioca


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: O Globo, Uanderson Fernandes (O Dia), Emerson Pereira e João Gomes (BAC)

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Moça Bonita, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um senhor negro, magro, barba branca por fazer, com rosto abatido e olhar triste caminha solitário. A camisa que veste tem um distintivo vermelho e branco, o do Bangu Atlético Clube. Quem o observa assim, nem imagina que ali está aquele que já foi, um dia, um dos maiores ídolos de uma torcida. Aliás, um nome simplesmente imortal para um clube. Quase vencido pelas decepções, pela bebida e pelas drogas, ele segue de pé. Mário José dos Reis Emiliano, o Marinho, está completando 60 anos. O Marinho do Bangu, craque da camisa 7, quase campeão brasileiro, considerado por alguns o maior banguense de todos. O Marinho injustiçado, inconsequente, sofrido, que teve fama, fortuna, mulheres e sucesso, mas virou dono de uma história triste. Ficaram as lembranças dos grandes tempos, que o tornaram um dos craques eternos do nosso futebol.

Para conhecer melhor a história de Marinho, que passa a ser "sessentão" nesta terça-feira (23), é preciso entender sua humilde origem. Santa Ifigênia, Belo Horizonte, 23 de maio de 1957: começava ali, num bairro pobre da capital mineira, uma história digna de filme, com altos e baixos que, às vezes, só o futebol proporciona. Caçula de sete irmãos, Mário nasceu num casebre onde vivia junto com 17 pessoas. As condições de vida eram terríveis e o obrigaram a ser catador de lixo na infância. Aos 12 anos, perdeu uma irmã mais velha. Acabou, pouco depois, recolhido para o reformatório de Pirapora, destinado a menores infratores. Lá, sofreu com as agressões e as brigas. Tinha tudo para virar estatística, mais um menino negro e marginalizado no país do futebol.

Mas era justamente para isso que Mário tinha um talento incomum: o futebol. Isso fez com que fosse jogar no Atlético, observado por um massagista do clube, um dos maiores de BH. Impressionou na base atleticana, onde jogou ao lado de craques como Toninho Cerezo. Aos 17 anos, em 1974, como ponta-direita, estreou como profissional no Galo. A velocidade nas arrancadas e dribles eram marca registrada. Sua grande inspiração era Garrincha. Assim como o Mané, vestiu a camisa 7, que o acompanharia pela vida. E foi este número que usou em sua primeira chance na Seleção Brasileira, nos Jogos Olímpicos de 1976, para os quais foi convocado.

Decepção no Galo, realidade em vermelho e branco

Fez quatro jogos ao lado de uma grande geração, formada por nomes como Júnior, Edinho e Carlos, mas ficou sem medalha: o Brasil ficou em quarto, atrás de Alemanha Oriental, Polônia e União Soviética, países da Cortina de Ferro e que utilizam a prerrogativa de não usarem jogadores profissionais, escalando seus times principais. Nenhuma grande frustração, portanto. Para Marinho, porém, o futuro próximo não foi tão brilhante quanto se esperava. Apesar dos bons jogos, ele teve dificuldades para se firmar no Atlético, por conta do deslumbre com a fama repentina. O desempenho ruim nos treinos e nos jogos foi decisivo para que ele acabasse negociado: foi para o América (SP).

No interior, encontrou de vez seu futebol, destacando-se na campanha do Paulistão de 1980, quando foi vice-artilheiro. Amadurecendo aos poucos e deixando de lado os hábitos boêmios, voltou às Seleções de base e foi cobiçado por grandes clubes do país, mas sem nunca ser vendido. Até ao Atlético (MG) chegou a ser emprestado, mais maduro, ajudando numa boa campanha do time no Brasileirão. Foi quando entrou em cena o Bangu, clube que mudaria para sempre a vida de Marinho. No fim de 1982, o patrono do Alvirrubro, Castor de Andrade, foi até São José do Rio Preto para tentar comprar o passe do atleta. Após reuniões tensas com o presidente americano, Benedito Teixeira, Castor pagou CR$ 40 milhões (equivalente hoje a quase R$ 900 mil) e levou o craque.

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Marinho era um jovem descontraído. Dono de sorriso largo e bom humor característico, conquistava a todos pela simpatia que, somada ao bom futebol, o transformava em potencial ídolo. Isso ajudou para que começasse, no Bangu, uma história de alegrias e tristezas que, até hoje, segue sendo escrita. Titular logo no primeiro ano, foi destaque durante o Campeonato Carioca, quando o time foi terceiro colocado, atrás somente de Fluminense e Flamengo. No ano seguinte, faturou a Copa do Presidente, na Coreia do Sul. Novamente, ajudou a colocar o Alvirrubro entre os melhores do Estadual. Mas o ápice estava por vir: em 1985, o camisa 7 já era ídolo para os torcedores e foi fundamental na campanha do Campeonato Brasileiro. Foram alguns gols e muitas atuações de gala, até a final, no Maracanã.

1985: um ano inesquecível, em todos os sentidos

Em 31 de julho, o Maraca se pintou de vermelho e branco para a decisão, contra o Coritiba. Todas as expectativas estavam sobre Marinho. Quando a bola rolou, o placar apontava 1 a 1 e o craque esteve perto de definir o título para o Bangu. Na primeira chance, chutou já com o goleiro Rafael batido, mas parou no zagueiro Heraldo, que salvou em cima da linha. Pouco depois, já nos minutos finais, balançou a rede, mas teve seu gol anulado. A decisão foi para os pênaltis, Marinho converteu o seu, mas Ado foi negado por Rafael. No fim, 6 a 5 para os paranaenses. Coritiba campeão, uma versão suburbana do "Maracanazo". Uma frustração, até hoje, difícil de aceitar.

– O gol foi legal, tenho certeza. Eu vim de trás. O bandeirinha também achou, tanto que correu com a bandeira arriada. Até o Rafael pensou que a jogada estivesse correta, saiu em cima de mim com decisão. Só o juiz viu impedimento. O Bangu mostrou que tem time para ser campeão, foi o melhor de todos. O Coritiba jogou pensando apenas no empate, para decidir nos pênaltis. O Gilmar (goleiro do Bangu) não teve o menor trabalho. Sempre acontece isso; o time melhor chega nos pênaltis desanimado porque lutou para vencer no tempo normal. O outro, não. Já estava preparado para este tipo de decisão e acaba vencendo – disse, logo após à final.

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Um consolo, ainda naquele ano, seria a conquista da "Bola de Ouro" da Revista Placar, como melhor jogador do Brasileirão. O prêmio foi entregue por Zico, antes de um Flamengo x Bangu que Marinho sequer jogou. A temporada ainda daria uma segunda chance de ser campeão ao craque, no Carioca. De novo, Marinho fez chover, mas o título novamente escapou: derrota para o Fluminense na decisão, por 2 a 1, com pênalti não marcado para os alvirrubros, nos minutos finais. O futebol apresentado por Marinho encantou o Brasil e até o exterior: foram 63 jogos e 33 gols naquele ano. Mesmo com propostas, o craque acabou ficando no Bangu e esteve perto até de uma glória merecida, a convocação a uma Copa do Mundo.

O técnico Telê Santana, da Seleção Brasileira, convocou Marinho para o período de treinamentos visando ao Mundial do México, utilizando o craque em dois amistosos. No último, contra a Finlândia, em Brasília, fez o gol da vitória por 3 a 0. Parecia que a esperada chance apareceria. A concorrência era forte: Müller, Renato Gaúcho e até Toninho Cerezo, contemporâneo dos tempos de Atlético, era lançado na posição. Quando saiu a lista, em 2 de maio, confirmou-se que Marinho não iria à Copa. Cortado, pegou imediatamente um avião para o Equador, onde o Bangu jogaria pela Libertadores da América, contra o Deportivo Quito. Quatro dias após o amargor, jogou, fez um gol, mas viu seu time perder por 3 a 1. Era a decepção definitiva com a Amarelinha.

O corte da Seleção foi um grande desapontamento. Marinho brigou com o mundo, passou a ver Telê como desafeto, o acusou de "matar os pontas" do futebol brasileiro. O craque, que já não recusava a bebida, foi para um caminho ainda mais perigoso: o das drogas. Embora seguisse relevante no Bangu, não encantava como antes. Apesar de tudo, seguiu como titular e, no ano seguinte, tornou a ter uma alegria: o título da Taça Rio, ao lado de uma geração renovada, mas que via em Marinho uma referência técnica. No fim de 1987, o camisa 7 deixou a Zona Oeste. Finalmente, vinha o reconhecimento em uma equipe de massa: o Botafogo, para o qual foi contratado a peso de ouro, junto a nomes como Cláudio Adão e Mauro Galvão, e onde chegou carregado em triunfo pelos torcedores. A busca era pelo título carioca, que não passava por General Severiano havia duas décadas. Poderia ser a chance de Marinho retomar a carreira.

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A tragédia que tirou o rumo do craque

Mas o momento mais dramático da vida ainda estava por vir. E foi o fato que acabaria mudando tudo dali em diante. Na sexta-feira que precedia o Carnaval de 1988, 12 de fevereiro, Marinho tinha uma lesão no tornozelo direito e estava sem treinar. Sequer tinha estreado pelo Alvinegro. Em casa, na Taquara, dava entrevista à TV Globo, ao lado do ator Nuno Leal Maia, seu amigo. Conhecido pelo jeito brincalhão, pretendia desfilar nos blocos carnavalescos dos dias seguintes, vestido como a cantora Tina Turner. No entanto, o chefe do departamento médico do Botafogo, Lídio Toledo, o proibiu terminantemente, para que não agravasse seu problema ainda mais. Após a entrevista, Marinho se despediu dos jornalistas, mas não viu o filho pequeno, Marlon, de um ano e sete meses, que tinha corrido na direção da piscina do casarão, onde caiu. Sem saber nadar, morreu afogando.

– Acabei de dar a entrevista e ele estava sentado o tempo todo no meu colo. Até hoje, tenho um pouco de trauma daquilo. Quando estava com o pessoal no portão, perguntaram: "cadê o Marlon?" Falei: "deixei ele aí". Procuramos em tudo e ele já estava um tanto debaixo d'água. E aí tive que pular, estava com a perna engessada. Quase que eu salvo ele... – lamenta.

A tragédia o abalou definitivamente. Já veterano, com mais de 30 anos, não ganhou espaço no Botafogo, onde virou reserva antes mesmo do fim da temporada. Os problemas com o álcool e a cocaína voltaram a aparecer com força. Faltas a treinos se tornaram frequentes. Seu Mercedes-Benz de luxo virou dormitório. Desgostoso da vida, não ia mais para casa e dormia dentro do automóvel. No título carioca de 1989, só jogou três partidas e, na maior parte dos jogos, sequer ficou no banco. Dali em diante, virou um peregrino do futebol. Voltou ao Bangu, passou novamente pelo América (SP) e ainda defendeu San José de Oruro (BOL), Entrerriense e São Cristóvão. Mesmo jogando pouco e sem nunca mais repetir o talento de antes, só foi parar mesmo aos 39 anos. Seu último jogo foi pelo Bangu, em 30 de abril de 1997, uma derrota por 3 a 1 para o Flamengo, pelo Carioca.

Quando a carreira acabou em definitivo, Marinho se viu com problemas. O alcoolismo e a falta de dinheiro o obrigaram a ter uma vida muito diferente dos tempos de jogador. Os carros na garagem e os imóveis que tinha em Belo Horizonte foram todos embora. O dinheiro, idem. Passou a viver de aluguel, casou-se novamente e garantiu ter mudado seus hábitos. Mas os traumas do passado e as portas fechadas do presente o assombravam. Não largou o futebol, treinando clubes como Ceres e Juventus. Depois disso, se separou pela última vez e passou a morar, de favor, numa clínica médica em Bangu. O pequeno salário da Fundação de Garantia do Atleta Profissional (Fugap) parou de ser pago. As comparações com Mané Garrincha, antes tão cheias de promessas e expectativas, agora faziam lembrar o fim triste do gênio das pertas tortas.

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Tantos anos depois, o próprio Bangu voltaria a ser o porto seguro do craque, que lhe deu um lugar na comissão técnica permanente do clube. Aos poucos, as coisas foram se ajeitando. Marinho fez amizade com o dono de uma pensão, que o acolheu e deu de comer. O Bangu ofereceu uma casa improvisada, nas dependências do próprio clube. para que ele morasse. Marinho virou uma espécie de conselheiro para os jovens que chegavam e deixavam Moça Bonita. A trajetória do filho, Steve Wonder, como profissional de Bangu, Ceres, America e São Cristóvão acalmaram a alma do gênio. Um golpe duro veio há dois anos, quando Marinho ficou internado por nove dias, com tuberculose, saindo bastante debilitado. A aparência ficou mais abatida; a voz, mais embargada. Mas houve tempo para uma homenagem que o colocou de vez na História: a camisa 7 do Bangu, que ele vestiu tantas vezes, não seria de mais ninguém: foi imortalizada pelo clube.

– Quem pensa que o dinheiro não acaba, acaba sim, rapidinho. Vai muito rápido. Mas ainda tem tempo para recuperar muita coisa e eu vou recuperar porque sou guerreiro e, graças a Deus, Ele me dá o que eu preciso. Me dando saúde, o resto é comigo. Sempre vou ganhar o jogo – confia o craque.

Apesar dos diversos obstáculos, do reformatório de Pirapora às ruas da Zona Oeste carioca, das frustrações, como a final de 1985 e o corte na Copa, das tragédias, da perda de uma irmã e um filho, Marinho sempre se levantou. E segue de pé, 60 anos depois. O homem dos 229 jogos e 81 gols com a camisa vermelha e branca, que driblou a marginalidade, teve do bom e do melhor, não soube manter o que conquistou, foi traído pelos amigos, pelas armadilhas do dia-a-dia e que perdeu quase tudo, menos a fé. Um eterno vencedor da vida, um camisa 7 imortal para o Bangu e para o futebol brasileiro.

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Tags: Bangu, Botafogo, São Cristóvão

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