Em 08/08/2017 às 14 h07

Da Europa à C do Rio: a trajetória do português que ofuscava CR7 na base

Após Sporting, Chelsea e seleção, Fábio Paim recomeça no Paraíba do Sul


Autor: Caio Figueroa / Fotos: Caio Figueroa (FutRio), Fernandes Souza (PSFC), Homem de Gouveia, Reprodução

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Fama ou dinheiro: qual seria a sua escolha? Esta indagação divide opiniões e expõe modos diferentes de pensar. O objetivo de vida de inúmeras pessoas é alcançar os holofotes, ser conhecido e reconhecido nas ruas. Mas e quando se quer o contrário? Quando se sonha, na verdade, com o anonimato? Por muitas vezes, a fama, tão almejada, pode acabar por se tornar um fardo. Foi o que aconteceu com Fábio Paim.

O português tem uma história fantástica. É oriundo das categorias de base do Sporting (POR), da mesma safra que Cristiano Ronaldo. Mas não é só isso. Paím ofuscava o atual melhor jogador do mundo quando ambos ainda eram jovens promessas. Quando Ronaldo foi para o Manchester United (ING), segundo consta, ele citou o ex-companheiro de Sporting na sua coletiva de imprensa de apresentação. "Se vocês me acham bom, esperem até verem Fábio Paim", disse CR7, àquela altura.

Em 2008, a expectativa não poderia ser maior sobre o multicampeão de base com a seleção portuguesa. Naquele ano, Paim foi para o Chelsea (ING), então "novo rico" do futebol mundial. Tinha tudo para ser o grande momento do atacante, que antes já havia sido emprestado pelo Sporting a clubes menores de Portugal. No entanto, Fábio Paim nunca estreou pela time principal dos Blues, sendo utilizados apenas na equipe B, prática comum na Europa.

O dinheiro atrapalhou. De origem humilde, Fábio Paim se deslubrou com as cifras e não rendeu o que seu talento o permitia. O atacante saiu do Chelsea após uma temporada e, na seguinte, teve contrato encerrado com o formador Sporting. De 2009 em diante, a eterna promessa circulou por equipes pequenas de Portugal, Angola, Catar, China, Malta, Lituânia e Luxemburgo, centros minúsculos em importância no quesito futebol.

Depois de três continentes, chegou a vez da América do Sul. E Paim escolheu um clube que poucos esperariam: o Paraíba do Sul, da quarta divisão do Rio de Janeiro. Em solo carioca, tudo que o atacante quer é reencontrar o futebol e "ser mais um", como ele disse repetidamente ao longo da entrevista.  

– Já aprendi com a vida que, com nome e com o que fizemos no passado, a gente não traz nada para o futuro. A gente tem que trabalhar. Já passei por alguns times do topo, conquistei algumas coisas, mas agora isso é o passado. No presente, é trabalhar para conseguir ajudar. Sozinho não vou conseguir ganhar nada. Sou mais um, sou igual a eles. Não peço tratamento diferente – disse, das arquibancadas de cimento do modesto Estádio Marrentão, em Xerém, após ver seu novo time empatar na estreia da Série C do Campeonato Carioca.

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Abaixo, confira a entrevista completa do FutRio.net com Fábio Paim:

Por que veio para o Paraíba do Sul?
– Já faz um tempo que tinham me falado desse projeto do Paraíba. O presidente (Eduardo Lino) é muito meu amigo, conheço há muito tempo de Portugal. Eu poderia ter ido para outra liga, poderia ter ficado em Portugal. Mas aqui é um país e uma cultura com os quais me identifico muito. É um projeto muito ambicioso, então não pensei duas vezes. Estou muito feliz por fazer parte desse grupo.

Agora que você está treinando com o time e assitiu à estreia no campeonato, o que achou? Onde o Paraíba do Sul pode chegar?
– Tenho certeza que nossa equipe é das mais fortes desse campeonato. Na primeira rodada, vi uma equipe muito superior. Não conheço outras equipes, mas penso que não tenha uma equipe que bata de frente conosco. Mas, no futebol, tudo pode acontecer, ninguém entra com um jogo ganho. Nosso time é muito jovem e eu sou mais um que pode ajudar na campanha da subida.

Qual é o peso de Fábio Paím numa quarta divisão do Campeonato Carioca?
– Já aprendi com a vida que, com nome e com o que fizemos no passado, a gente não traz nada para o futuro. A gente tem que trabalhar. Já passei por alguns times do topo, conquistei algumas coisas, mas agora isso é o passado. No presente, é trabalhar para conseguir ajudar. Sozinho, não vou conseguir ganhar nada. Sou mais um. Sou igual a eles. Não peço tratamento diferente. Peço, sim, a todos que tenham a mesma vontade que eu para conseguir o objetivo que vai ajudar a todos, vai ser bom para todos. É o que precisamos, o que pediram para nós: ajudar o Paraíba na subida.

Você ainda tem 29 anos. É uma fase intermediária para um atleta de futebol; nem tão novo, nem tão experiente. Como você se vê daqui a cinco anos? Ainda almeja jogar em grandes clubes do mundo ou pelo menos do Brasil?
– Aceitei esse convite por isso mesmo. Penso que, aqui no Brasil, as pessoas não criticam tanto o nosso passado. Isso me dá o prazer de trabalhar todos os dias. Desde que cheguei, já evoluí muito. Estava com peso a mais. E desde que estou aqui, já estou melhor, preparado para fazer o jogo. Agora é dar um passo de cada vez. No futebol, tudo é possível. De uma hora para outra, de um ano para o outro, tudo pode mudar, tanto para o bem quanto para o mal. Estou focado em ajudar o Paraíba a subir de divisão. E tudo que acontecer para frente vai ser bom para mim. O que eu passei nesses últimos anos foi complicado. Penso em jogar em um grande clube, como todo jogador pensa, mas o momento é de pensar em fazer as coisas direitinho e todo o resto vem vindo.

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Qual é ou quais são seus maiores arrependimentos na vida?
– Meu arrependimento foi não ter escutado as pessoas que estavam do meu lado, não ter ouvido. Mas quando somos jovens achamos que sabemos tudo. Depois, a vida vai nos ensinando que estamos errados. Sou ser humano, aprendi com meus erros. Por um lado, infelizmente; mas por outro, felizmente. Isso me ajudou a crescer como homem, como pai, como pessoa, isso é o mais importante. Sinto-me arrependido por certas coisas que fiz no passado, mas todos nós, quando jovens, cometemos (erros). Até como adultos também. É levantar a cabeça e fazer o que a gente gosta com prazer, sem obrigação. Vim para cá com todo prazer. Agradeço o pessoal que tem feito tudo por mim aqui no Brasil. Meu companheiros (de time), que são muito humildes como eu. Por isso acho que me entrosei e me sinto em casa.

O dinheiro atrapalhou a carreira?
– Sim. Eu vim de uma família muito pobre. E quando a gente, do dia para noite, se torna rico, acho que isso mexe um pouco conosco. E a gente acaba por fazer certas coisas que não são boas para nossa profissão. Temos que estar focados porque trabalhamos com o corpo. Mas a vida vai nos ensinando. Agora, é pensar para frente. Não tenho nenhuma lesão, não estou incapacitado. Sou uma pessoa muito feliz e muito realizada.

Dizem que você se envolveu com álcool e isso também o prejudicou...
– Eu fazia as coisas normais que todos os jovens fazem, mas eu não era um jovem normal, não poderia fazer. Mas é o que estou dizendo: quando somos jovens, a gente acha que nada vai acontecer conosco, só com os outros.

Cristiano Ronaldo é uma inspiração para você?
– Claro, não só para mim mas para todo mundo. Sabendo das dificuldades que ele passou, de tudo que passou para chegar onde chegou. Penso que, para todos do mundo, ele tem que ser uma referência. Em Portugal, não vão conseguir igualar o Cristiano. Ele é de outro mundo, é um fenômeno. 

Sua ida para o Chelsea poderia ser um ponto importante para sua carreira decolar, mas você sequer estreou pelo time principal. O que deu errado em Londres?
– Fui contratado, mas jogava com a segunda equipe. Sempre joguei vários jogos. Na altura que eu fui, era difícil. Eu tinha 19 para 20 anos e o Chelsea era das maiores equipes do mundo. Seria muito difícil jogar porque tinham grandes jogadores. Por isso eu pedi para sair, para poder jogar, ter mais ritmo de jogo. Não queria ficar só pelo dinheiro. Porque o futebol não é só o dinheiro, precisamos nos sentir realizados e bem onde estamos. Se não fosse isso, eu não viria para o Paraíba, mas para outro clube onde ganhasse mais. Mas foi uma passagem muito boa no Chelsea, de onde tirei muitas amizades.

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Defina o Fábio Paim de hoje.
– Hoje sou um homem, tenho 29 anos. Passei por muito. Acho que ainda vou cometer erros, como todo mundo. Mas meus erros são mais visíveis, as pessoas comentam mais. É ruim porque eu não me considero uma estrela, não me considero uma pessoa famosa. Me considero uma pessoa normal, que ama jogar futebol. Não me sinto uma pessoa diferente das outras, por isso gosto de conviver e aprender com outras pessoas. Às vezes, as pessoas confundem por sermos jogadores, por estarmos na mídia. Não me sinto assim. Eu faço o máximo possível para ser uma pessoa normal. Acho que isso incomoda muita gente. Por isso é que gosto tanto do Brasil. Acho que aqui as pessoas não criticam, cada um cuida da sua vida, as pessoas gostam de ajudar e isso é o mais importante.

Tags: Paraíba do Sul

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