Em 13/02/2018 às 18 h08

Antiga joia do Madureira, Bruno Tiago busca sucesso no "eldorado" mexicano

Há três anos no México, volante mira objetivo de elevar seu time ao nível principal


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Divulgação, Damian Bezares (Vavel), Sandro Vox e Fernando Soutello (AGIF)

Em qualquer parte do mundo, é raro encontrar um campeonato nacional em que o maior goleador de sua história seja brasileiro. O México, país tão encantado pelo futebol verde e amarelo, é uma das exceções, graças aos gols de Cabinho, desconhecido no Brasil (onde passou discretamente pelo Flamengo) e ídolo eterno na terra dos mariachis. Aliás, brasileiros que fazem história no México, sem tanto reconhecimento por isso em sua própria terra, são artigo fácil de encontrar. Bruno Tiago, ex-volante de Madureira, Botafogo e Boavista, decidiu correr o risco mesmo já tendo uma história consolidada no futebol carioca. E não se arrependeu: está na América Central há três anos e vem colhendo, aos poucos, os frutos do sucesso e da sonhada estabilidade na carreira.

image

Bruno, de 29 anos, joga desde 2015 pelo Cafetaleros de Tapachula, da segunda divisão mexicana. É a primeira experiência internacional do jogador nascido em São Luís (MA), que virou figurinha carimbada no Rio, no começo desta década, graças a seu destaque no Madureira e, principalmente, pela passagem que teve no Botafogo, sob o comando do experiente Joel Santana. Hoje mais rodado e maduro, o meio-campista é titular com frequência e alimenta o sonho de levar seu time ao "eldorado" da primeira divisão do México, campeonato  capaz de dar grande projeção e exposição, apesar de não ser mais fonte de vagas à Copa Libertadores da América. Objetivos que, ao menos por enquanto, não o fazem pensar em voltar à terra natal.

– Fico feliz pela sequência que venho tendo aqui no México. Graças a Deus, têm sido três anos maravilhosos, de muita alegria e reconhecimento. É sinal de que nosso trabalho vem sendo bem feito. O campeonato é gostoso de se jogar, é bastante intenso. Aqui, eu adquiri muita experiência, um conhecimento maior, me aproximei de outras culturas também – afirma Bruno, ao FutRio.net.

Dono de mais de 50 jogos com a camisa do Madureira, nas duas passagens que teve na Rua Conselheiro Galvão, Bruno Tiago chegou ao Botafogo em 2010, pelas mãos do técnico Joel Santana, que confiou em seu futebol e o levou a General Severiano. Sem muito espaço, acabou rodando por Boavista, Joinville (SC) e Linense (SP) antes de ir parar em Tapachula, cidade no extremo sul mexicano, quase fronteira com a Guatemala. No Cafetaleros, onde estreou há quase três anos, é um dos jogadores mais queridos pela torcida e se apoia no moral elevado junto a todos na cidade para tentar conquistar um inédito acesso para o clube, fundado justamente no ano em que chegou.

Confira abaixo a íntegra de entrevista de Bruno Tiago ao FutRio.net:

Existem muitas diferenças entre o futebol mexicano e o que é praticado no Brasil?
– Quando cheguei, não tive muito tempo para me adaptar, mas a única grande diferença mesmo é a questão de não serem marcadas tantas faltas, o jogo é mais intenso e rola mais. É bom porque a gente joga mais, faz um espetáculo melhor. O campeonato aqui no México é bom de se jogar. Nosso time tem a maior torcida da liga, as estatísticas comprovam. E a gente sempre vem brigando para subir. A dificuldade é que sobe só um time para a divisão principal, não três ou quatro, o que torna tudo mais difícil.

Por ser uma primeira oportunidade jogando no futebol do exterior, a adaptação por chegar em outro país foi complicada?
– Costumo falar que minha chegada aqui foi um passo importante porque já tinham dois brasileiros e isso me ajudou muito. Eles já falavam a língua, estavam ambientados ao futebol daqui. Eu não falava nada de espanhol, ainda tinha vergonha, precisei me acostumar à comida e essas coisas. Mas ter brasileiro aqui é bom e ajudou bastante. Hoje tem o Diego (Guerra, zagueiro ex-Friburguense) também, o William, que jogou no Bahia. Quanto mais brasileiro, melhor: a gente consegue se dar bem. A convivência com todos é ótima, aqui tem argentino, equatoriano... Hoje estou bem mais tranquilo para lidar com qualquer situação aqui.

image

O México tem vivido nos últimos anos um cotidiano violento, especialmente na região de Chiapas, onde você joga. Isso já te afetou diretamente, de alguma forma?
– A gente escuta falar muita coisa, eu acompanho o noticiário sempre, gosto de estar sempre bem informado. Até para tranquilizar minha família no Brasil. Mas juro que nunca passei perto de viver uma coisa assim, como assalto ou tentativa de assalto. No Rio de Janeiro, a mesma coisa. Acho que também depende muito: eu sempre procuro estar em casa, no mais tardar, às 11 da noite, fazer programas mais caseiros. Mas a gente soube de casos de outros jogadores que foram assaltados em saída de banco etc. Eu nunca passei por isso e a cidade aqui, pelo menos para mim, é bem tranquila. Até pelo carinho que todos têm por mim e minha família. Sempre me senti bem amparado por todos. Só o que incomoda são as viagens longas. Agora mesmo, vamos fazer quatro jogos em duas semanas, uma loucura. É pouco tempo por causa da Copa do Mundo, que encurtou o calendário. Aí, a gente viaja demais e descansa pouco. Mas, fora isso, nunca houve nenhum incidente comigo ou minha família.

Apesar da liga mexicana não dar mais vagas à Libertadores da América, o campeonato se fortaleceu nos últimos anos, os clubes têm tirado jogadores do mercado europeu e tornado tudo mais competitivo...
– O campeonato mexicano é bem atrativo. Confesso que não acompanhava antes de vir para cá, mas hoje tem muitos jogadores que vêm de fora. Tem o Gignac, francês que joga no Tigres, um outro francês (Ménez) que agora vai jogar no América do México... É um campeonato que, financeiramente, traz ótimos atletas e torna a liga mais interessante. O que assustar qualquer um mesmo é o jeito como eles fazem futebol. Na Liga de Ascenso, a nossa segunda divisão, a gente enfrenta times inferiores, mas é incrível a quantidade de torcedor que vai no estádio. E são jogos na sexta-feira à noite, às vezes nos sábados, depois da nove da noite.

É seu objetivo jogar por uma equipe da elite?
– Até falei com o presidente do clube que meu principal desejo é subir com o Cafetaleros. Por várias questões: a cidade, ter criado um status maior dentro do clube, ser uma das referências. Isso seria uma grande satisfação para mim. Mas não descarto possibilidade nenhuma. Já houve uma sondagem do Cruz Azul, que não foi levada à frente por questões de valores. O nosso clube tem uma parceria com o Tijuana, que é da primeira divisão também. Então é claro que tenho esse sonho e esse desejo, mas meu foco agora é cumprir meu contrato até maio e, depois disso, ver o que acontece. Quero dar uma grande alegria à torcida do meu time, que é a do acesso.

Você já teve a chance de estar no Estádio Jalisco, em Guadalajara, onde o Brasil disputou a maioria dos seus jogos na Copa do Mundo de 1970. O que representa, para um brasileiro, atuar em um estádio tão histórico?
– Fico feliz e honrado por ter esse privilégio. Bateu um friozinho na barriga exatamente na semana de jogarmos no Jalisco porque muita gente comentou comigo, a história que representa o estádio para quem é brasileiro. O mexicano é apaixonado pelos brasileiros, é uma coisa linda. Receber esse carinho é ótimo porque ele vem graças às nossas antigas gerações, que deixaram um legado muito bom. É por isso que o mexicano sempre nos acolhe com carinho, com alegria. Nós, que estamos aqui hoje, só estamos desfrutando do que esses craques deixaram para nós.

Voltando um pouco no tempo: como foi o começo da sua carreira, deixar o Maranhão para cumprir o sonho de jogar no Rio?
– Comecei na base do Sampaio Corrêa (MA) e sempre tive destaque por lá. O ex-presidente do clube, Arthur Carvalho, tinha um time chamado São Luís e um projeto no Nacional (PR). Ele me chamou, eu topei, mas minha vontade mesmo era jogar no Rio de Janeiro. Aquela coisa de menino do Nordeste, atuar no Maracanã, ver de perto aquela festa na geral. Mas, em princípio, não quiseram me liberar, tinha a questão da Lei Pelé e eu só podia sair quando completasse 18 anos. O diretor falou isso na minha frente e na frente da minha mãe. Chorei que nem criança, era muito jovem, era uma oportunidade que eu achei que não teria mais. Mas o presidente conseguiu fazer uma troca e, depois, fui para o Paraná.

imageE, depois disso, você acabou vindo de vez para o Rio...
– Lá no Nacional, conheci o Clóvis Dias, que tinha um bom relacionamento com o Elias Duba (presidente do Madureira). Eu já era até profissional e fui para o Madureira. Quando cheguei, encontrei aquele pessoal: Maicon, Muriqui, Djair, Odvan, André Lima... Uma rapaziada boa. Chegamos eu e o Rodrigo (Lindoso) primeiro, conseguimos destaque em algumas competições nos juniores e subimos para o profissional. Depois disso, pude realizar o sonho de jogar no Maracanã e fomos seguindo a vida. Foi uma história difícil, mas graças a Deus também com coisas boas para comemorar. Agradeço muito ao Madureira, ao Duba, que é um cara maravilhoso e sempre me amparou no clube. Digo que, de modo geral, sou um cara contente e bem realizado. Apesar de ser de São Luís, minha vida é toda no Rio; meus filhos e minha esposa são cariocas. É onde gosto e amo morar. Na verdade, foi um sonho que acabou virando realidade: ter jogado e viver numa cidade maravilhosa.

Quando você esteve no Botafogo, em 2011, houve uma sondagem do Atlético de Madrid (ESP), mas você acabou permanecendo em General Severiano. Por quê a coisa não evoluiu e o quanto isso fez diferença para você no decorrer da carreira?
– Quando houve a proposta do Atlético, fiquei sabendo mas optei por ficar no Botafogo. Eu vinha numa sequência boa no Carioca, tinha a vantagem de disputar o Campeonato Brasileiro, recebi a confiança do Joel Santana e de toda a comissão técnica. Imaginei que, na época, aquela era a melhor decisão possível. Só que, logo depois disso, o Joel saiu e eu tive um estiramento grau dois na coxa. Fiquei uns quatro meses colocando gelo no joelho, perdi a sensibilidade da perna e levei um tempão para identificar o que era. Aí, perdi espaço, pedi para ser emprestado para poder jogar mais e foi isso que aconteceu. São coisas que me ensinaram muito. Se fosse hoje, com a cabeça que tenho hoje, talvez não pedisse para sair: teria ficado e brigado pelo meu espaço. Mas é claro que agradeço ao Botafogo, foi uma época muito boa. Sou muito grato ao Papai Joel e à torcida. Não levo mágoa nenhuma, só coisas boas. O Botafogo é uma família, um lugar bom de jogar e trabalhar, com um ambiente gostoso de viver.

Quando você chegou ao Botafogo, foi pelas mãos do Joel Santana, que se impressionou com seu futebol no Madureira e pediu sua contratação. Quais são as lembranças que tem dele?
– O Papai Joel tem um significado muito importante na minha vida. É um cara a quem sou muito grato. Para mim, foi uma experiência incrível, a que tive com ele. Nunca vi um técnico capaz de agradar até o cara que não joga, que pensa que está largado. Até esse cara ama ele. A forma como o Joel trata o jogador é diferente: do ídolo a quem está começando, não tem diferença. É um cara honesto, de um coração e um caráter incríveis. O Joel é um cara maravilhoso.

image

Tags: Madureira, Boavista, Botafogo

Outras Notícias

Encontre-nos no Facebook






As informações deste site são constantemente atualizadas pelo FutRio. Ressaltamos que o FutRio reserva-se ao direito de alterar qualquer informação do site, valores e demais informações, sem aviso prévio.

© Copyright FutRio - Todos os direitos reservados.

desenvolvido por