Em 21/08/2018 às 09 h00

Independente desiste da Quartona e dirigente dispara: "É uma porcaria"

Após sofrer WO, diretoria anuncia que não jogará restante da Série C


Autor: Redação FutRio / Foto: Juper Ribeiro (AEI)

Em 2018, o Independente voltou ao futebol profissional após 14 anos. Bem sucedido nas disputas amadoras de Macaé, o time entrou na disputa da Série C do Carioca e encontrou várias dificuldades, mas conseguiu jogar e até vencer em seus primeiros jogos. Neste domingo (19), porém, a equipe perdeu por WO para o Tomazinho, devido à falta de um enfermeiro na ambulância. Mas o que se seguiu depois parece ter sido decisivo para o destino do clube na temporada. A arbitragem relatou em súmula ter sido agredida nos vestiários por dirigentes do Independente, inconformados pela não realização do jogo. A fúria dos cartolas foi tão grande que uma decisão drástica foi tomada: o clube vai se retirar da competição.

O Independente foi punido pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ) com a perda de cinco mandos de campo por causa do incidente deste domingo, mas a diretoria do clube preferiu nem esperar: confirmou que não vai colocar o time em campo nos próximos dois jogos que ainda estão por acontecer no Grupo B, contra Mageense e EC Resende. O presidente da Liga Macaense de Desportos, Wanderson Agostinho, também é dirigente do Independente e é um dos citados na confusão que aconteceu no Moacyrzão. Ele confirmou que a decisão de desistir da Quartona é devido a um formato "falido" de competição.

– O regulamento se preocupa muito com punição e com multa, mas não se preocupa com o desenvolvimento esportivo do campeonato. Pedi para que a questão fosse revista e que se remarcasse o jogo. Como sei que isso não vai acontecer porque a imposição lá dentro (da FFERJ) é muito grande, o Independente vai se retirar do campeonato. Aí, deixem que eles tomem a medida que quiserem, mas a gente precisa se defender. É esta a nossa decisão – disse Wanderson, durante longo depoimento em entrevista ao programa "FutRio na Geral", da Rádio FutRio, nesta segunda-feira (20).

Assim, o Independente deverá perder por WO seus dois próximos jogos, apesar da exclusão do clube não ter sido protocolada por parte da FFERJ. Em princípio, seguem no calendário os jogos contra o Mageense (dia 26, no Alzirão) e EC Resende (com local ainda a ser definido, em 4 de setembro). Desiludido com a Série C, Wanderson também fez uma série de ataques à organização e estrutura do campeonato. Além de inflar o número de WOs da Quartona, a desistência do Tricolor – além das duras palavras de seu dirigente – promete voltar a colocar luz sobre uma questão já levantada desde o ano passado, relativa aos corriqueiros problemas da competição, que volta a ser marcada por problemas administrativos e troca de farpas entre clubes e Federação.

Leia a íntegra da entrevista de Wanderson Agostinho ao "FutRio na Geral":

Problemas na ambulância
– Realmente, tivemos um imprevisto com a equipe médica. Um enfermeiro veio, mas a carteira dele não estava em mãos. Ele pediu para que mandassem uma foto do documento dele, mas o delegado não aceitou. De emergência, contratei um médico e dois enfermeiros. Um deles chegou antes, chamei o delegado e disse que já tínhamos a ambulância, que os outros estavam vindo e que seria injusto perdermos por WO. São encargos altíssimos e fizemos tudo certinho. Já estavam os dois (médico e enfermeiro) dentro do carro com o meu filho e eu pedi mais cinco minutos porque estavam vindo. Com toda estrutura que o estádio oferece, ia deixar de ter o jogo por causa de cinco minutinhos? A gente não sabe do motivo do médico escalado não estar lá, na hora não dava para discutir isso e eu precisava resolver logo o problema.

Negociação com a arbitragem
– O árbitro disse que, por ele, estava OK, mas deixou nas mãos do delegado. O delegado ficou lá parado, olhando para a minha cara. Depois o quarto árbitro alegou que eram 15 minutos (de espera), depois mais 15 e acabou. Estávamos no tempo, ainda faltavam dois minutos, dissemos a eles que já estavam na ponte, chegando no estádio. O quatro árbitro ficou pressionando junto ao delegado. Dois minutos depois, chegaram meu filho, o enfermeiro e uma médica. Quando eles foram para campo, o quarto árbitro viu que o médico estava entrando para mostrar os documentos ao árbitro principal, virou-se para os jogadores do Tomazinho e avisou que eles já tinham o direito de tirar o time de campo. O árbitro e os auxiliares ainda estavam lá no meio. Ele nem deu jogo encerrado, saiu de campo sem ter ouvido a gente e nem ter visto os documentos dos profissionais de saúde. Simplesmente saíram e não deram o jogo. Achei isso uma intransigência, que nos levou a um enorme descontentamento.

Confusão nos vestiários
– Conheço o pessoal da Federação há 30 anos, conheço pessoalmente o delegado do jogo. Entrei no vestário e questionei o árbitro reserva sobre o porquê dele querer encerrar logo o jogo. O objetivo dele, desde o início, era não dar a partida. Tínhamos gandula, maqueiros, toda a estrutura na nossa mão. Quando jogamos no Expedicionário, o jogo foi de portões fechados, mas tivemos ambulância, tudo bonitinho. Por que, num jogo no Moacyrzão, o cara não poderia esperar mais cinco minutos? Realmente, deu um tumulto, uma confusão, mas é lógico que eles vão colocar coisas para denegrir a minha imagem e a do meu filho. É covardia. Houve uma discussão calorosa e uma reação forte da parte deles, mas não aconteceu metade do que se escreveu na súmula. Se tivesse acontecido, a polícia estava lá dentro para qualquer coisa. Tudo estava sob controle e foi apenas uma discussão com algumas palavras ditas no calor da emoção. Não houve agressão, eu mesmo chamei o policial e a gente poderia ter ido para a delegacia. Mas como eles têm o poder de escrever o que quiserem, a gente também tem testemunha para não deixar que isso seja encarado como realidade.

Exigências para a Quartona
– Entendo que a Federação deve rever seu conceito de organização em futebol profissional e de base. A Série C é muito castigada. Veja quantas ocorrências estão acontecendo no campeonato. Será que todos estes clubes estão errados? A carga financeira é muito alta. Para que ter dois médicos? A gente aproveita a audiência de vocês para questionar isso. Não podia ter um médico, um enfermeiro e um técnico na UTI Móvel? Por que não deixar o médico de campo "fazer" a ambulância? Não tem 100, 200 pessoas que paguem para entrar em um jogo desses. Então, não tem necessidade de tanta coisa em cima de clube da Série C. O regulamento se preocupa com punição e multa, mas não se preocupa com o desenvolvimento esportivo do campeonato. Pedi para que a situação fosse revista e que se remarcasse o jogo. Como sei que isso não vai acontecer porque a imposição lá dentro é muito grande, o Independente vai se retirar do campeonato. Aí, deixem que eles tomem a medida que quiserem, mas a gente precisa se defender. É esta a nossa decisão.

Razões para desistir
– Quando você se dá conta que não está em um campeonato para competir, mas para disputar regulamento, para nós já não interessa. Assumo que, erradamente, reativei o Independente depois de 14 anos, pensando que estava transformando isso em um sonho e, na verdade, era um pesadelo. A Série C é um pesadelo para time de futebol profissional. Quem quiser começar no profissionalismo, pegar uma Série C hoje, como a Federação está querendo fazer, é um suicídio para qualquer um. Depois de tantos gastos que tivemos, o prejuízo é muito maior. O emocional, maior até que o financeiro. E o prejuízo emocional não tem preço. Então, a gente desiste de disputar a competição.

Dificuldades de organização do campeonato
– O que mais me decepciona, apesar do valor absurdo, é que a gente tem que assumir que o clube não estava preparado para tudo isso, para o montante exigido. É tudo muito rápido: se negocia tudo numa assembleia, se faz o sorteio e a gente, a partir daquele momento, já pode ser punido porque assinou o documento. Os valores passados foram altos, mas não é só isso: o regulamento de competições é muito duro, sabe que uma coisa vai ligar à outra. Quando a gente conseguir fazer uma coisa, não vai conseguir a outra. Na Série C, se ainda tiver um patrocínio, alguém com recurso de prefeitura, pode ser que seja uma meia-dúzia (de clubes). O resto é quem quer difundir o futebol, praticar o jogo com amor e não têm estrutura nenhuma, mesmo. E eu incluo o Independente nisso. A competição é de alto nível em termos de cobrança financeira e de regulamento, mas é uma porcaria de competição. É mal dirigida, as pessoas são estúpidas ao atender os clubes. Falo por mim, mas tenho certeza de que outros sofreram a mesma coisa, não terem sido atendidos de forma decente e educada na hora de buscar uma informação. Não sei se serei bem visto na Federação a partir de agora, por causa da minha declaração, mas estou falando do que aconteceu comigo. Quantos clubes já não tiveram problemas desde o início? E quantos ainda terão? Vai acontecer ainda mais.

Futuro do Independente no profissionalismo
– Não vejo futuro se esse modelo de competição não mudar. É preciso fazer uma grande reavaliação das Séries B1, B2 e C. Onde tem subsídio, até entendo que está tudo muito bom. Eu não tenho subsídio nenhum para a C. Esse modelo não tem condição, ele vai falir, não vai engrandecer nem valorizar em nada o desporto. A Série C não precisa existir. Ela é, na verdade, uma "Série D". E a estrutura que a gente precisa cumprir nela é a mesma da Série A, pô. Como a gente vai conseguir? Sendo que a Série A tem recursos de TV, a Série B1 tem subsídios. E a Série C não tem nada. Acho sim que os clubes precisam estar preparados e estruturados, concordo plenamente. Mas é necessário que se faça a coisa de forma crescente, é a partir disso que um clube se prepara para o ano seguinte. Hoje, estão fazendo tudo de cima para baixo. Mas, para finalizar, vou reconhecer: o erro maior foi meu, em ter reativado o Independente para este ano. Me arrependo muito pela minha moral e pela história que tenho no futebol. Nunca sofri uma humilhação tão grande como essa.

Tags: Independente

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