Em 10/10/2018 às 23 h16

#SãoCriCri120: O enorme legado internacional deixado pelos cadetes

Clube cedeu 11 jogadores à Seleção e teve resultados marcantes fora do país


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Sport Illustrado e Reprodução (Internet)

Para muita gente, parece impossível acreditar que o modesto São Cristóvão já foi capaz de ter alcance internacional. Mas a verdade é que os cadetes já brilharam em gramados que vão muito além do Rio de Janeiro. Vitórias em territórios estrangeiros, representantes na Seleção e Brasileira e um sem número de jogadores revelados em Figueira de Melo provam o talento cristovense em mostrar, também fora do país, que o futebol praticado na Zona Norte do Rio sempre teve seu valor.

LEIA TAMBÉM:
>> Figueira de Melo é pioneira que ainda resiste

Na série de reportagens "#SãoCriCri120", do FutRio.net, o segundo episódio trata justamente deste potencial do São Cristóvão em ser um embaixador, ainda que modesto, do futebol brasileiro no exterior. Muito mais do que o clube que revelou um Ronaldo três vezes melhor jogador do planeta, os alvos podem se orgulhar por terem representado o país de maneira bastante significativa. Muito além da simpatia que conquistou junto a seus próprios conterrâneos e da dificuldade que os estrangeiros têm em pronunciar seu nome, o São Cri-Cri tem bagagem e já rodou o mundo com relativo sucesso.

image

Na primeira metade do Século XX, o calendário do futebol não era tão cheio como nos dias atuais. O Campeonato Carioca, grande vedete de qualquer clube do Rio, durava no máximo cinco meses e era preciso manter o time ativo durante o restante da temporada. Tudo para atender a demanda de um público já apaixonado por futebol e que ajudava a manter em dia as contas de qualquer agremiação. Sem campeonatos nacionais em disputa na época, as excursões pelo Brasil e pelo exterior eram comuns. E o São Cristóvão foi um dos pioneiros neste sentido.

O clube viajou por diversas partes do mundo para enfrentar adversários e mostrar o talento do futebol do Brasil. Em 1937, o clube foi ao Egito. Lá, tornou-se o primeiro time brasileiro a atuar naquele território. Passou ainda, em sua história, por países como Turquia, Grécia, Bolívia, entre outros. O "boom" destas excursões aconteceu nos anos 50, altura em que o futebol brasileiro já gozava de grande prestígio no exterior e praticamente todos os times cariocas viajavam no primeiro semestre. Ao São Cristóvão, certamente a melhor lembrança é de uma ida histórica à Europa e ao Mediterrâneo, onde conseguiu grandes vitórias.

Em 10 de abril de 1954, o grupo de jogadores partiu do Aeroporto do Galeão. Ao lado do técnico Osvaldo Costa, viajaram Hélio, Manfredo, Ivan II, José Alves, Severino, Décio, Milton, Sarcinelli, Cabo Frio, Ivan, Carlinhos, Herrera, Cosme, Índio, Kibon, Franklin, Arlindo e Jorge. O time passaria por Itália, França, Malta, Dinamarca, Alemanha, Argélia, Marrocos e Tunísia. A estreia seria contra a poderosa Roma (ITA), no Estádio Olímpico local, mas os dirigentes cadetes erraram ao comprar as passagens e colocaram o time em um avião que ia para Lisboa, capital portuguesa, e não para Roma. Os atletas pernoitaram em Portugal e o jogo quase não aconteceu.

Mas o problema foi resolvido de última hora e o São Cristóvão conseguiu viajar para a Itália de madrugada. Chegaram a Roma na manhã do dia 14 e teriam de atuar já à tarde, poucas horas depois. Cerca de 15 mil pessoas foram ao lendário Estádio Olímpico para ver os "giallorossi" enfrentarem o time brasileiro, mesmo com uma formação alternativa, já que os romanistas enfrentariam a Lazio em um clássico pelo Campeonato Italiano, quatro dias depois. A Roma fez 1 a 0 com um gol de Andreoli, mas os cristovenses empataram com Ivan e viraram, no segundo tempo, em um gol de Arlindo: 2 a 1. O São Cristóvão tinha acabado de conquistar uma vitória histórica sobre a grande Roma.

image

A empolgação fez o São Cristóvão virar sensação na Itália e a Lazio, rival da Roma, quis enfrentar os cadetes. Porém, o jogo acabou nem acontecendo porque o clube carioca já estava acertado para seguir sua turnê no Norte da África. Lá, teve belas atuações e conseguiu vitórias expressivas. A maior delas foi um 11 a 0 em cima do Espérance (TUN), que se tornou o recorde: foi a maior goleada de um time brasileiro sobre um europeu como visitante até então. A equipe bateu ainda um combinado da cidade tunisiana de Ferryville, por 8 a 2.

De volta à Europa, o São Cristóvão foi a França, ganhou do Red Star e empatou com o Lyon, indo em seguida para Malta, onde manteve sua invencibilidade e ganhou até da seleção daquele país. De volta à França, derrotou o forte Saint-Étienne por 2 a 1, antes de ir para a Dinamarca, ganhar dois jogos e empatar mais um. Só foi perder sua invencibilidade quando esteve na Alemanha, já no fim da excursão, ao perder para o Kassel. Ao todo, o time fez 20 jogos, ganhando dez, empatando oito e perdendo apenas dois.

Na Seleção, dupla baiana e Atlético (PR) ficam para trás

O potencial do São Cristóvão de ir além de suas fronteiras não se restringe, no entanto, a jogos com a própria camisa do clube. A Seleção Brasileira também já foi uma importante vitrine para jogadores chamados enquanto defendiam o time da Figueirinha. Até hoje, os cadetes têm um posto do qual podem se orgulhar: é o 24º time que mais cedeu jogadores à Seleção. Mais do que Sport (PE), Vitória (BA), Bahia e Atlético (PR), equipes tradicionais do futebol brasileiro mas que chegaram depois dos cadetes na fila de representantes na equipe nacional.

No Rio, o São Cristóvão é superado pelos quatro grandes, além de America e Bangu, em número de atletas cedidos ao time canarinho. Mas, em Copas do Mundo, o clube tem ares de pioneiro. No Mundial de 1930, o primeiro da História, Theóphilo e Zé Luiz, campeões cariocas de 1926, estavam no Uruguai representando a equipe. Cada um deles esteve em campo em um dos jogos do Brasil naquela Copa: Theóphilo, na derrota contra a Iugoslávia; Zé Luiz, na vitória em cima da Bolívia.

O Mundial de 1938, na França, foi uma verdadeira consagração para o clube, com Affonsinho e Roberto estando entre os titulares com frequência. O primeiro jogou quatro vezes e o segundo esteve em campo em duas oportunidades. Foi de Roberto – um dos grandes artilheiros da história cristovense, aliás – o gol da crucial vitória em cima da Tchecoslováquia, no segundo jogo das quartas de final. Na época, não havia pênaltis e como o primeiro confronto tinha empatado até na prorrogação, só um "replay" decidiu a vaga na semifinal, com triunfo por 2 a 1. Mais tarde, o Brasil terminaria a Copa do Mundo em terceiro lugar.

image

É verdade que já faz tempo a última atuação de um cristovense pela Seleção: em 10 de março de 1963, Altamiro esteve em campo na vitória sobre o Peru, pela Copa América. No entanto, os 11 jogadores que defenderam a Seleção principal estão na História. Na base, nomes como Humberto Tozzi, Franz, Ari, Renato Isidoro e Ivo Soares também foram lembrados. Isto sem falar em Ronaldo, que disputou várias partidas com a Seleção Brasileira Sub-17, entre 1992 e 1993, ainda como jogador cristovense, antes de se transferir para o Cruzeiro (MG).

Jogadores que defenderam a Seleção enquanto atuavam pelo São Cristóvão:
(entre parênteses, o ano da primeira partida)

14 jogos: Affonsinho (1935)
9 jogos: Nesi (1922)
8 jogos: Roberto (1936)
6 jogos: Theóphilo (1929)
4 jogos: Martins (1919)
3 jogos: Zé Luiz (1930), Agrícola (1932) e Carreiro (1939)
1 jogo: Doca (1930), Francisco (1935) e Altamiro (1963)

Tags: São Cristóvão

Outras Notícias

Encontre-nos no Facebook






As informações deste site são constantemente atualizadas pelo FutRio. Ressaltamos que o FutRio reserva-se ao direito de alterar qualquer informação do site, valores e demais informações, sem aviso prévio.

© Copyright FutRio - Todos os direitos reservados.

desenvolvido por