Em 23/10/2018 às 18 h46

Há 30 anos, Nova Cidade conquistava a Segundona e subia para a elite

Clube foi uma das grandes zebras do ano e representou Nilópolis na Série A


Autor: Gabriel Andrezo

O Nova Cidade ainda está na ressaca da comemoração do acesso para a Segundona do ano que vem, mas esta terça-feira (23) marca um momento importante na história do clube de Nilópolis. Há exatamente 30 anos, o clube conquistava o título da segunda divisão do Campeonato Carioca, surpreendendo muita gente e colocando sua cidade pela primeira vez entre os maiores clubes do futebol do Rio de Janeiro. Uma campanha histórica e de recuperação, com a equipe somando apenas sete pontos no primeiro turno, mas 22 no segundo.

Mas como foi possível um clube de bairro, vindo das disputas amadoras, dono de um acanhado estádio e sem grande fama fora de sua cidade recuperar-se de maneira tão acentuada numa temporada como a de 1988? O FutRio.net voltou três décadas no tempo para contar a história de uma conquista esquecida, desvalorizada e até desconhecida dos atuais fãs da segunda divisão, mas que acaba tornando-se tão ou mais importante do que conquistas mais atuais, uma vez que o acesso da época não dependia de Seletivas: era direto à primeira divisão.

Começo difícil e sem expectativas

O Nova Cidade era um clube de pouco nome perante boa parte de seus rivais de Segundona, em 1988. Fundado 49 anos antes, só chegou ao profissionalismo no começo da década de 80. Após subir da terceira divisão em um campeonato conturbado e envolvendo viradas de mesa, em 1986, o Alvirrubro teve que lutar contra uma grave crise financeira no ano seguinte e só não foi rebaixado de volta porque salvou-se nas últimas rodadas. O panorama para a temporada de 1988 não era dos melhores, uma vez que boa parte do time se manteve e poucas mudanças aconteceram de fato.

Além de tudo, o time não tinha laudos técnicos para jogar em casa, segundo a FFERJ. A entidade exigia que o Joaquim Flores tivesse melhorias, como uma saída direta da arbitragem para fora do estádio, além de uma distância maior entre as balizas e o alambrado, e uma capacidade maior que a de 1.020 pessoas. Na ocasião, a FFERJ exigia um mínimo de 5 mil lugares para os estádios que fossem receber os jogos da Segundona. No entanto, o clube conseguiu uma liminar na Justiça para atuar, o que dava a qualquer time que perdesse em Nilópolis o direito de recorrer e pedir a anulação do jogo. Mas isso acabaria nem sendo muito necessário na primeira metade do campeonato.

Logo na estreia, o time perdeu para o rival Mesquita, jogando em casa. Os resultados negativos foram se acumulando, com quatro derrotas nos primeiros cinco jogos. O filme de 1987 parecia estar se repetindo e a primeira vitória (a única da primeira metade do campeonato) aconteceu em um duelo em casa, diante do Paduano. As grandes forças da época, como Bonsucesso, Campo Grande, Olaria e São Cristóvão, pareciam franco-favoritos a conquistar a subida de divisão, enquanto o Nova brigava para se segurar fora da zona de rebaixamento.

Sem chances de ganhar o primeiro turno, o clube precisou jogar todas as suas fichas no segundo turno, uma vez que classificavam-se para a fase final os campeões de cada metade da competição, além do time de melhor campanha. Como já tinha ficado para trás, tentar levantar o caneco do returno parecia ser a única possibilidade de salvar a temporada. A diretoria, comandada pelo presidente Gélson Chagas, contratou então o jovem técnico Ita, na esperança de que o time pudesse se recuperar.

A recuperação da zebra nilopolitana

Se o primeiro turno foi um pesadelo, o Nova Cidade tinha lá seus jogadores de destaque. Vassil, Trigo, Noronha, Dé, Héber, Zé Carlos e tantos outros eram capazes de levar o time a uma campanha melhor no returno. E isso foi, aos poucos, se concretizando: três vitórias seguidas, logo de saída, já provavam que o clima era bem diferente no Joaquim Flores. E os belos resultados foram se sucedendo, especialmente em casa, onde o time não perderia mais.

Uma vitória em cima do Madureira, no Joaquim Flores, foi um marco para o Nova Cidade. O time saiu atrás, mas virou com gols de Noronha e Almir, este último aos 40 minutos da segunda etapa. O auxiliar Nivaldo Caderna de Melo, em princípio, tinha dado tiro de meta após cruzamento de Zé Carlos, mas depois correu para o meio do campo e foi perseguido por jogadores do Madureira, que reclamaram por cerca de dez minutos e deixaram o jogo paralisado. Mas o triunfo fundamental acabaria mesmo confirmado para o clube de Nilópolis.

Na última rodada, o Alvirrubro só dependia de si para ser campeão, mas precisava bater a difícil Portuguesa, na Ilha. Mesmo que o Campo Grande batesse o Paduano, o Nova Cidade faturaria a taça com uma simples vitória, mas ela não veio: o time ficou no 0 a 0 com a Lusa, enquanto o Campusca derrotou o time de Pádua por 2 a 0. No fim, ambos clubes terminaram o returno empatados com 22 pontos. Apenas um jogo extra, a final do segundo turno, é que poderia definir quem seguiria em frente em busca da Primeira Divisão de 1989.

A decisão tinha um ar mais quente do que o comum, uma vez que o Nova Cidade precisava faturar o título para forçar a realização do Triangular Final. Se o título fosse do Campusca, o Galo subiria à elite junto com o São Cristóvão. Às 15h, o árbitro Aloísio Viug se negou a começar o jogo sem a presença do policiamento, o que irritou as torcidas dos dois times, que estavam impacientes com a demora e passaram a se provocar. As provocações viraram briga e morteiros foram disparados de um lado a outro da arquibancada do Caio Martins, ferindo três pessoas.

A polícia apareceu aos poucos e o jogo só começou às 16h45. Sob forte calor, o jogo era morno em campo e ninguém parecia querer se arriscar. Só no segundo tempo é que o Nova Cidade fez 1 a 0 com Dé, mas Zé Carlos empatou para o Campusca, a sete minutos do fim. O empate levou os dois times a uma exaustiva prorrogação de 30 minutos e, persistindo o empate, os pênaltis decidiriam. Neles, brilhou a estrela de Vassil, que defendeu as cobranças de Brás e Paulo Sérgio, garantindo a vitória por 4 a 2. A festa em Nilópolis varou a madrugada, com direito a bateria da Beija-Flor.

Fase final conturbada e com virada de mesa

A fase final do campeonato foi bastante acidentada. Inicialmente, um Triangular seria formado para que dois times subissem à elite. No entanto, de última hora, houve uma virada de mesa: o Olaria apareceu na etapa decisiva, que tinha virado, portanto, um Quadrnagular. A alegação da FFERJ é de que o clube da Rua Bariri tinha feito a segunda melhor campanha no geral e, por isso, tinha o direito de estar ao lado de São Cristóvão (campeão do turno), Nova Cidade (campeão do returno) e Campo Grande (melhor campanha no geral).

A rodada inaugural do Quadrangular, marcada inicialmente para 2 de outubro, foi cancelada pela FFERJ porque o regulamento ainda não havia sido definido. Mas o aviso, se realmente tiver sido feito, parece não ter chegado a seus destinatários. Um funcionário da Federação foi ao Luso-Brasileiro para São Cristóvão x Campo Grande e apenas lá descobriu que a partida não aconteceria. Ele relatou ao "Jornal dos Sports" que foi à Federação na noite anterior e ninguém o avisou do adiamento.

Só no meio da semana é que se definiu o tal regulamento, havendo no entanto um impasse, uma vez que o Campo Grande queria ter um ponto de vantagem sobre os rivais, por ter a melhor campanha, o que não foi aceito. Aliás, esta foi a razão para que a fase final fosse adiada em uma semana, já que o clube de Ítalo del Cima estava intransigente. Inicialmente inclinado a recorrer à Justiça Desportiva, o que adiaria ainda mais o campeonato, o Galo desistiu e acatou as ordens.

Na primeira partida do Triangular, um fato pitoresco chamou a atenção. Gélson e a esposa, Isabel, assistiam ao jogo das arquibancadas, na expectativa de que Sinésio entrasse. Dona Isabel passou a pedir, aos gritos, "bota o Sinésio" para o técnico Ita. Depois, pediu ao esposo para que ele se manifestasse também e foi atendido. Foi quando Ita explodiu de vez: não colocou Sinésio e, ao fim do jogo, discutiu com o presidente e disse não admitir sua interferência na escalação e chegou a falar com jornalistas que entregaria o cargo. O presidente se apressou para dizer que não exigiu a escalação de Sinésio, mas que gostaria de vê-lo em campo: "não por ser o meu filho", garantia.

Naquela partida, o Nova Cidade ficou no empate com o Olaria, mas um triunfo decisivo em cima do São Cristóvão, na partida seguinte, deixou o time mais perto do título e do acesso. De fato, isso se concretizou, numa quente tarde de 23 de outubro de 1988. No Luso-Brasileiro, o time de Nilópolis enfrentou o Campo Grande em busca de mais um ponto que lhe garantisse a inédita subida. Naquele time, um jovem de 17 anos estreava, como zagueiro: era o lateral-esquerdo Serginho, na época desconhecido, mas que depois ganharia o Brasil e o mundo, chegando a clubes como Flamengo, Sampdoria (ITA) e Milan (ITA), inclusive passando pela Seleção Brasileira.

O empate em 1 a 1 com o Campusca deu ao Nova Cidade o acesso. Vassil; Da Costa, Serginho, Soneca e Alvinho; Trigo, Noronha e Arlindo (Almir); Zé Carlos (Malhado), Héber e Danilo, a formação histórica que fez o pequeno Nova Cidade chegar às manchetes e ser mais um dos clubes a entrar no folclore do futebol do Rio. O time ficou na primeira divisão em 1989 e 1990, caindo de volta em seguida e ficando sem acessos por três décadas. A espera acabou no último fim de semana e agora o clube espera ter mais uma chance de brilhar no cenário estadual. Se parece inesperado, os herois de 1988 provam que é possível.

A campanha:

- Primeiro turno:
09/04 - Nova Cidade 1x2 Mesquita (Joaquim Flores)
17/04 - Central 1x0 Nova Cidade (Mário Tamborindeguy)
24/04 - Serrano 3x0 Nova Cidade (Atílio Maroti)
01/05 - Nova Cidade 1x1 Miguel Couto (Joaquim Flores)
08/05 - Rubro 1x0 Nova Cidade (Mário Castanho)
11/05 - Nova Cidade 1x0 Paduano (Joaquim Flores)
15/05 - Nova Cidade 0x0 Tomazinho (Joaquim Flores)
21/05 - Bonsucesso 0x0 Nova Cidade (Teixeira de Castro)
29/05 - Campo Grande 3x0 Nova Cidade (Ítalo del Cima)
01/06 - Madureira 0x0 Nova Cidade (Aniceto Moscoso)
04/06 - Nova Cidade 1x2 Olaria (Joaquim Flores)
11/06 - São Cristóvão 2x0 Nova Cidade (Figueira de Melo)
18/06 - Nova Cidade 0x0 Portuguesa (Joaquim Flores)

- Segundo turno:
26/06 - Mesquita 1x2 Nova Cidade (Louzadão)
03/07 - Nova Cidade 1x0 Central (Rua Bariri)
10/07 - Nova Cidade 1x0 Serrano (Joaquim Flores)
17/07 - Miguel Couto 0x0 Nova Cidade (Joel Pereira)
24/07 - Nova Cidade 0x0 Rubro (Joaquim Flores)
31/07 - Paduano 1x2 Nova Cidade (Waldo Carneiro Xavier)
06/08 - Tomazinho 0x1 Nova Cidade (Beronhão)
14/08 - Nova Cidade 1x0 Bonsucesso (Joaquim Flores)
21/08 - Nova Cidade 1x1 Campo Grande (Joaquim Flores)
28/08 - Nova Cidade 2x1 Madureira (Joaquim Flores)
04/09 - Olaria 0x2 Nova Cidade (Rua Bariri)
11/09 - Nova Cidade 3x1 São Cristóvão (Joaquim Flores)
18/09 - Portuguesa 0x0 Nova Cidade (Luso-Brasileiro)
25/09 - Nova Cidade 1(4)x(2)1 Campo Grande (Caio Martins)

- Quadrangular Final:
09/10 - Nova Cidade 0x0 Olaria (São Januário)
16/10 - Nova Cidade 2x1 São Cristóvão (Luso-Brasileiro)
23/10 - Campo Grande 1x1 Nova Cidade (Luso-Brasileiro)

Tags: Nova Cidade

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