Em 20/11/2018 às 18 h14

20/11: o racismo na visão de quatro jogadores negros do futebol carioca

Atletas relatam experiências que tiveram com o preconceito em suas carreiras


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Vitor Costa, Jhonatan Jeferson (FutRio) e Marcos Faria

Em 20 de novembro de 1695, Zumbi dos Palmares, escravo que havia escapado da fazenda de seus senhores para se tornar líder de um das maiores comunidades de resistência à escravidão, foi morto pelas autoridades que estavam a serviço da Coroa Portuguesa. Sua execução fez com que se tornasse um mártir e um pioneiro na luta contra a servidão e inspirou, três séculos depois, a criação do Dia da Consciência Negra, que se tornou feriado nacional. A data recorda a luta de Zumbi e dos negros por uma liberdade que, na prática, nunca foi totalmente entrega a uma população que ainda encontra dificuldades sociais e esbarra no maior dos obstáculos: o racismo, ainda presente, embora velado, no Brasil. E o futebol não é estranho à essa situação.

Num país em que a maioria absoluta da população é negra (51% de pardos ou pretos, segundo o Censo de 2010, do IBGE), é justo reconhecer que a proporção é ainda maior ao se tratar de jogadores profissionais de futebol, embora não haja uma amostragem oficial neste sentido. Mesmo sendo um meio majoritariamente negro, o futebol segue sendo alvo de manifestações racistas, um problema nacional que também afeta o Rio de Janeiro e que pode ser reconhecido nos detalhes mais evidentes e indicado em fatores estruturais.

Na atual década, alguns casos de racismo saltaram aos olhos. A acusação do olariense Amarildo a Acácio, então técnico do Americano, em 2012, não teve maiores desdobramentos. Ofensas racistas a Bruno Alves, do Macaé, em um jogo contra o Friburguense, no Eduardo Guinle, tiraram dois mandos de campo do time serrano, mas o clube foi posteriormente absolvido. No ano passado, Douglas Lima, do Madureira, foi atacado com termos racistas nas redes sociais após uma jogada que machucou Gustavo Scarpa, do Fluminense. Mas muitos outros casos, informalmente citados, ficaram sem registro oficial. Olhando para a estrutura do futebol carioca, entre os técnicos que trabalharam no profissionalismo em 2018, 21 são negros, mas a maioria só teve espaço em clubes de divisões inferiores. Na Série A, só Edson Souza (Resende), Luisinho Lemos (America) e Marcelo Salles (Nova Iguaçu) estão empregados.

Pensando nestes e em outros dados, a reportagem do FutRio.net decidiu ouvir a palavra de quatro jogadores negros do futebol carioca e o que têm a dizer sobre o racismo que encaram no dia a dia, do mais explícito ao mais oculto. São diferentes amostragens entre homens de diversas idades, formações e pensamentos, mas com algo triste em comum: o fato de que todos já sofreram ofensas raciais, mesmo trabalhando em um meio que pode garantir algum status, admiração popular, idolatria e até independência financeira. O quanto cada um se afeta com o que já viu ou ouviu sobre a cor de sua pele? Como seguir adiante frente a ofensas e injúrias tão sérias?

Os depoimentos são marcantes, emitidos com naturalidade e dão um merecido lugar de fala a quem mais tem razões para se sentir representado pelo 20 de novembro. Luiz Felipe, vítima de preconceito dentro dos próprios clubes que já defendeu. Pessanha, o zagueiro vencedor e de personalidade, mas que já foi recebido em campo sob pesadas injúrias raciais. Luis Guilherme, o goleiro que recorreu a Barbosa, também perseguido, para dar a volta por cima na carreira. Gilcimar, artilheiro experiente e consagrado, que conviveu com o racismo da branquíssima Polônia até a miscigenada Campos dos Goytacazes. Visões diferentes do mesmo preconceito, ainda uma rotina para quem é protagonista num meio que segue sendo uma das principais portas de abertura para os negros na sociedade brasileira.

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Luiz Felipe
26 anos, goleiro do Resende e com passagens por Friburguense, Itaboraí e Sampaio Corrêa

– Joguei por dois anos e meio no Sul, atuei pelo Internacional, na base. E já convivi com esse tipo de preconceito até dentro do próprio clube em que jogava. Não gostaria de comentar muito sobre isso especificamente porque poderia expor algumas pessoas. Mas passei por alguns episódios quando a gente ia jogar no interior, em Pelotas, Caxias do Sul... A coisa mais grave foi quando a gente foi disputar um jogo da Copa FGF contra o Brasil de Pelotas, no estádio deles. Estava lotado, tinha umas 17 mil pessoas e muitas delas, atrás do gol, tentavam me desconcentrar, faziam sons de macaco. Foi difícil até me concentrar no jogo.

– No Rio, não cheguei a passar por algo parecido. Se aconteceu, não percebi. Talvez pelo fato de eu ter muitos amigos aqui, ser conhecido, ter um círculo de amizades até fora do futebol, sinto que nunca vivenciei algo do tipo. Mas pode ter acontecido, isso acaba sendo normal. Uma coisa é quando as pessoas que te conhecem e são seus amigos brincam com você, outra coisa é quando tentam te ofender diretamente, dizem coisas para te colocar para baixo. Existem, sim, algumas coisas que são exageradas, muita gente faz tempestade em copo d'água e fica parecendo que qualquer coisa é racismo. Mas, realmente, ele está nas pequenas coisas. Está no jeito como você anda, como você se veste, da maneira como te olham.

– Além do preconceito de cor, que a gente vivencia, existe o preconceito por ser goleiro. Mas hoje procuro não me abalar com isso. A gente vê jogadores que representaram muito bem a classe, como o Dida, o Jefferson. Quando existem caras como esses chegando a uma Seleção Brasileira, por exemplo, derrubam algumas barreiras. São goleiros de cor que têm um peso e uma importância muito grande para o futebol e para o nosso trabalho.


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Luis Guilherme
25 anos, goleiro do São Gonçalo, com passagens por Botafogo, Bangu e seleções brasileiras de base

– Existem várias formas crueis de racismo, mas a pior delas é quando o negro olha para si e começa a se questionar, a projetar essa dúvida nele mesmo. Passei por isso muitas vezes. No cotidiano, ao ser suspeito de cometer um delito, numa blitz da polícia ou estar em algum local e alguém te olhar como se você fosse perigoso. E tem a questão do mérito. Em certos momentos da vida, a coisa não dá certo e é muito ruim pensar que, se você não fosse negro, seria diferente. Tive um episódio triste na Seleção Brasileira: fomos jogar contra um time da Rússia e, após o jogo, fui cumprimentar os jogadores deles e fizeram um sinal de quem imita um macaco, com as mãos. Ninguém me cumprimentou. Isso me abalou muito. Em 2008 ou 2009, já ouvi de integrantes de comissão técnica que tinham dificuldades de me convocar por eu ser negro. Foi quando li sobre a história do Barbosa (vice-campeão mundial com a Seleção Brasileira, em 1950). Sempre se busca um culpado mas, nesse caso, a coisa generalizou: ficou tudo nas costas dele. Não marcaram só o Barbosa, marcaram o goleiro negro. É aí que a gente se questiona. Não tenho certeza sobre o que deu errado para eu não me tornar o goleiro que esperava ser, mas ser negro é uma das hipóteses. Quando passo a enxergar minha carreira, o fato de ela não ter deslanchado, pensar que pode ter sido pelo fato de ser negro é muito triste. Porque a dúvida é pior do que a certeza.

– Recentemente, o Andrey (ex-Botafogo) foi eleito o melhor goleiro da Copa do Nordeste, mas quantos negros o Brasil revela na posição e quantos estão jogando, até na terceira divisão? Num país com um percentual de negros altíssimo, até dentro do futebol? O futebol capta e profissionaliza milhares de jovens, a maioria deles é de negros. Por que tão poucos goleiros? O jogador tem que entender que ele está no meio de um processo político. Não quer dizer que ele tenha que ser radical, nem de direita nem de esquerda. A coisa é mais complexa que isso. O jogador passa, muitas vezes, por um processo muito duro de formação, longe da família, abdicando de muita coisa, mas tem a chance de vencer, de conquistar coisas importantes. Só que isso nem sempre acontece, tem muitos que desistem no meio do caminho e que vão fazer outra coisa. É importante que o atleta negro e vencedor não se envolva nas coisas rasas, como ser visto com uma determinada mulher ou dirigindo um determinado carro, mas que ele seja engajado, que vá além da imagem. Quando fui estudar filosofia, ouvi muito que eu tinha que saber o que queria da vida, se jogar futebol ou estudar. Sendo que, em muitos países, há políticas em que o jogador precisa se formar para poder jogar. Quando esse jogador negro fala um pouco sobre a vida dele, precisa entender que vira um exemplo para muitos jovens. Quanto maior for essa proximidade entre ele, que conseguiu ser bem sucedido, e esses jovens, maior é a chance para que ele se torne uma referência de representatividade.

– Existe uma banalização da visão do negro como sendo perigoso, malandro. Você vê alguém que tem um determinado perfil cometendo um crime e passa a pensar que todo mundo que se encaixa naquele perfil é capaz de fazer o mesmo. Os dados são alarmantes e eu faço parte disso. De certa forma, rompi um pouco com essa "regra" porque consegui me formar. A gente tem um problema social muito grande porque é a população negra que tem mais dificuldades de acesso a serviços básicos. Machuca demais viver em meio a esse turbilhão de coisas. Acho que o atleta negro, principalmente o que vence, deve carregar essa bandeira. Enquanto ele consegue vencer, é importante que mostre de onde veio. Tem muitos talentos que não têm a mesma sorte, mas que têm potenciais incríveis, seja no futebol ou em outras áreas. Que esse 20 de novembro seja um dia para tomar consciência disso. No Brasil, infelizmente, o preconceito ainda é uma constante. O que há é uma espécie de latência, mas ele existe, está lá e sempre existiu.


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Pessanha
30 anos, zagueiro do Sampaio Corrêa, dono de três acessos estaduais e um nacional

– Lá no Rio Grande do Sul, boa parte da população de Porto Alegre é negra, mas o interior tem muita gente branca. Lembro que a gente ia jogar, pelo Internacional, em Caxias do Sul. Uma vez, no Estádio Centenário (campo do Caxias), acontecia da gente entrar em campo e começar a escutar algumas coisas vindas da arquibancada. Eu procurava não dar muita importância para isso porque você corre o risco de desfocar do que precisa fazer em campo. Mas acredito que isso já tenha mudado hoje em dia, sim. A gente vê tantas mudanças acontecendo mundo afora... Espero que isso mude em definitivo.

– Não passei por isso diretamente contra mim, mas se tivesse passado, acho que minha atitude teria sido igual à do Daniel Alves, que comeu a banana que jogaram nele. No país em que a gente vive, isso (racismo) infelizmente ainda acontece e é muito triste. Acho que a gente que é negro devia mostrar cada vez mais que todos nós somos seres humanos, somos uma carne só. Fico feliz que o Rei do Futebol seja negro, que a Rainha do Futebol, a Marta, seja negra. Esta é uma data que deve ser comemorada, apesar de tudo que se passou, porque é a nossa cor. O que procuro passar para os outros é que, independente da sua profissão e da sua cor, é importante amar o próximo. Não precisa ser da sua família; que seja um colega, um amigo. É importante demonstrar um gesto de carinho, que todo mundo pode se ajudar, é isso que eu prego.

– Aqui no Rio, não passei por isso e posso dizer que não tenho nenhuma inimizade no futebol daqui. Porque sempre busquei passar alegria, experiência, ser profissional fora de campo. Sendo uma pessoa, um pai de família digno e correto, você consegue transmitir isso para dentro de campo também. Dos meus ídolos no futebol, guardo até hoje uma foto que tirei com o Juan, do Flamengo, ainda no tempo em que eu jogava na Portuguesa. E posso dizer que tenho um ídolo que é mais novo que eu: o Marquinhos, do Paris Saint-Germain (FRA). Gostaria de dizer isso a ele um dia, o quanto ele representa para mim, o quanto me espelho nele. Também adoro o Dedé, um mito na zaga, um jogador espetacular. Conheci e joguei com caras como Bolívar, Índio, Álvaro, mas é no Juan e no Marquinhos em que vejo características com as quais me identifico.


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Gilcimar
37 anos, atacante do Audax, quarto maior goleador do futebol carioca na década

– Já aconteceu comigo duas vezes, uma delas foi quando joguei na Polônia. Mas procurei não me deixar abater por isso porque não é nada que me torne menos humano ou uma pessoa inferior. Tenho uma essência boa. Não consigo ver cor nas pessoas, só a qualidade e o caráter. Mas é claro que a gente se entristece, eu só não me deixo levar por isso. No Brasil, também aconteceu, mas foi um caso isolado. Foi num jogo em Campos, no ano passado, contra o Americano. Um torcedor, que nem sei se posso chamar assim, até porque não tiro por todos os torcedores do Americano dessa forma, me xingou lá da arquibancada. Encaro essa pessoa como alguém ingorante, sem cultura, até sem nexo. Ele sair da casa dele, em vez de apoiar o time dele, preferir me xingar... E tinha jogadores negros também no Americano, ou seja, ele não ofendeu só a mim, mas também aos do próprio time dele. E não tiro a torcida como um todo como preconceituosa porque a maioria fez um espetáculo bonito, aplaudiu nosso time de pé, na saída de campo. Na hora em que os caras viram, muita gente veio pedir desculpas em nome dele. Até chamei a polícia na hora, mas pensei melhor e mudei de ideia porque achei que não valia perder meu tempo com aquilo. Quando voltei, os dirigentes e muitos torcedores vieram pedir desculpas outra vez, mas a verdade é que eu deixei isso para lá, enterrado.

– A gente tem umas referências importantes. O Pelé, que é nosso Rei do Futebol, o Jairzinho, o próprio Garrincha, que Deus o tenha. Também gosto do Adriano, que é um cara que veio de baixo e ganhou um grande destaque no futebol. Hoje mesmo, existem exemplos no futebol e em outros esportes, como o Neymar, o Usain Bolt (jamaicano tricampeão olímpico no atletismo). O mais importante mesmo é ter Deus no coração e nao se abater. A essência do ser humano é boa, só que a gente se perde no meio do caminho. Que essa gurizada que está chegando consiga se espelhar em bons exemplos, mais do que a cor da pele, mas que veja o caráter de cada pessoa, que veja o que ela passou na vida para poder chegar onde chegou.

– Na verdade, isso nunca me afetou porque acho que o ser humano não se pode julgar pela cor da pele. Sou tranquilo para falar sobre o assunto. Às vezes, o preconceito passa a existir quando a gente aceita que falem esse tipo de coisa sobre a gente. Entendo também que existe muita hipocrisia da parte de alguns para falar nisso, até de alguns negros, na hora de explorar uma data como essa. Mas sou tranquilo em relação a isso, já passei por algumas coisas mas sigo em frente. A gente vai avançando na carreira, pára e pensa sobre a própria vida, em como é o ciclo dela: a pessoa nasce, cresce, constitui família, entra na fase da velhice e depois morre. E nessa hora, independente da cor da pele, vai todo mundo para o mesmo lugar, que é o cemitério. Então a gente entende que essas questões só têm a ver com a vaidade do ser humano. A gente tenta fazer com que o ser humano seja melhor que isso, que não se deixe levar por essas coisas.

Tags: Futebol carioca

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