Bate-bola com a Dani: Emerson Sheik, do Corinthians

Emerson está atualmente no Corinthians (foto: Tom Dib)

Emerson está atualmente no Corinthians (foto: Tom Dib)

Conheça um pouco mais sobre o atacante em entrevista exclusiva para o FutRio

Danielle Esperon
Postado às 18:34 de 28/05/2012
Bate-bola com a Dani

Nome: Márcio Emerson Passos de Albuquerque, mais conhecido como Emerson Sheik
Nascimento: 6 de setembro de 1978 em Nova Iguaçu (RJ);
Possui dupla cidadania no Qatar. Atua como atacante e joga com a camisa 11 do Corinthians.

Prato preferido: Feijoada.
Um filme: Sexto Sentido.
Um lugar: Emirados Árabes. Dubai é fantástico.
Um jogo inesquecível: Minha estreia no Fluminense. Contra o Botafogo pela 7ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2010.
Um gol: Título de 2003 pelo time Urawa Reds Diamonds do Japão, que tem a maior torcida da Ásia, e até então não tinha um título. Foram dois gols na final da Copa Nabisco.
Uma curiosidade da cultura japonesa: Japonês não gosta de comer sentado, só deitado.
Campeão Brasileiro: 2009 (Flamengo), 2010 (Fluminense) e 2011 (Corinthians).

FutRio – Você se profissionalizou no São Paulo e em pouco tempo recebeu uma proposta do futebol japonês. Por ter apenas 18 anos na época, você sentiu medo?
EmersonEu estava cheio de expectativa na época de poder jogar no São Paulo, mas não aconteceu porque tinha outros grandes jogadores, não tinha tanto espaço. Aí apareceu um clube do Japão querendo me levar e eu, ainda com medo e meio desconfiado, acabei aceitando. E a experiência foi maravilhosa, vivi seis anos no Japão, aprendi a língua, fiz vários amigos.

FutRio – Como foi ter que se adaptar a uma nova cultura, outros costumes?
EmersonNo meu primeiro ano eu vivi na cidade de Saporo, que é uma ilha dentro da ilha que é o Japão. E lá eu peguei 26 graus negativos, o que já é difícil… fora que eu não falava o japonês nem o inglês, foi mais difícil ainda, e eu ainda estava sozinho, foi muito difícil mesmo… Mas fora o problema do idioma, acho que o frio foi o fator negativo mesmo. Mas eu fui me adaptando aos poucos.

FutRio – Você é muito conhecido no Japão. E você chegou a usar peruca para sair nas ruas por causa do assédio. Como foi isso?
EmersonEu sou muito tímido, saía nas ruas e as pessoas pediam autógrafo, queriam tirar foto e ainda tinha o problema do idioma que eu não sabia o que estavam falando. E como sempre fui muito envergonhado, eu adotei uma peruca, mas eu usei pouco tempo, uns três meses. Ninguém me conhecia, foi maneiro (risos), mas eu saía pouco, ficava mais em casa por causa do frio.

FutRio – Após seis anos no Japão, você foi jogar no Qatar e na França. Sua passagem pela Europa foi rápida. Por que?
EmersonFui vendido para o Al Saad do Qatar, onde eu fiquei dois anos. Minha passagem foi muito proveitosa, fiz amigos, conquistei títulos. E logo depois eu fui jogar na França. Não foi muito boa a minha passagem por lá por causa da adaptação da família. Eu joguei em Rennes, uma cidade muito fria, e tava muito difícil ficar lá. Aí depois de oito meses voltei para o Qatar e fiquei mais um ano.

FutRio – Quando você ficou fora do Brasil, você sentiu falta de voltar e ser reconhecido aqui?
EmersonSentia falta de jogar um campeonato no Brasil, jogar próximo da minha família, mas ao mesmo tempo eu tinha medo de não conseguir jogar aqui . Fiz muito sucesso fora, no Japão, no Qatar e tinha receio de não conseguir me adaptar ao futebol daqui.

FutRio – E em 2009, você atuou pelo Flamengo, mas não ficou muito tempo. Por que?
EmersonDepois de um momento difícil que eu passei, onde eu fiquei cinco meses sem jogar no Qatar. Voltei para o Brasil e joguei pelo Flamengo. Eu tinha medo de não dar certo, mas acabou dando tudo certo, fui recebido com muito carinho pelo vice-presidente da época, os jogadores me abraçaram de uma maneira que não tenho como esquecer e eu comecei a jogar. As coisas foram acontecendo positivamente, houve uma identificação muito grande com o torcedor do Flamengo, pena que não durou muito. Depois de oito meses, no segundo turno do Campeonato Brasileiro, apareceu uma proposta que era boa para mim e também para o clube, que até então não tinha gasto nada comigo. Então nós (atleta e clube) optamos em desfazer o vínculo e eu fui atuar nos Emirados Árabes.

FutRio – Você quando estreou no Flamengo fez gol, no Al Ain e no Fluminense também. Você se considera pé quente?
EmersonNão sei se sou pé quente, mas acredito muito no trabalho. Se você faz a coisa certa, trabalhando com seriedade, com dedicação, respeitando as pessoas, você tem resultado. Mas, coincidência ou não, em todas as minhas estreias, eu marco gol. Mas também não quero ficar estreando muito não. No Flamengo, eu estreei contra o Fluminense e fiz gol, no Fluminense estreei contra o Botafogo e fiz gol, é vai ver que sou mesmo pé quente (brinca).

FutRio – Como é sua relação com o torcedor? Você gosta do assédio, do carinho do público?
EmersonEu gosto e mais ainda das crianças e dos idosos. Eles são especiais. Um dia, uma senhora de mais ou menos 80 anos, eu estava no shopping passeando e ela tocou no meu ombro e eu falei “oi”. Pensei que ela quisesse sentar, aí saí. Aí ela disse: “Sheik”. Eu tive que falar: “Caramba a senhora me conhece?”. Dei um abraço nela… quando ela me disse: “Poxa queria você em outro clube, porque sou torcedora, mas gosto de você”. E as crianças também, é o maior barato, o reconhecimento. E é isso que motiva, dá força para continuar tentando sempre fazer o melhor, eu acho que quando isso acontece, a gente coloca a cabeça pra pensar e consegue ver que tudo isso vale a pena. Às vezes jogamos em datas comemorativas, aí ficamos longe da família, sem ter muito tempo para a família, aí recebe um carinho desse aí percebemos que realmente vale a pena.

FutRio – Qual foi a maior lição que você pôde tirar depois de toda essa experiência?
EmersonProfissionalmente dizendo eu pude crescer muito fora, longe da família, dos amigos, das pessoas que a gente tem certeza que nos ama, e aprende muito com tudo isso, eu trabalhei com muitos profissionais, então eu cresci muito como atleta. Como pessoa, fica difícil falar porque eu saí do Brasil como um cara que só tinha viajado Rio-São Paulo e que veio do município do Rio, da periferia, uma infância pobre, e tive a oportunidade de morar em quatro países e jogar em mais de quarenta. Então eu cresci muito como pessoa, dei valor a vida, principalmente, viver cada dia intensamente, porque o dia de amanhã a gente não sabe, aprender a dar valor a amizades verdadeiras, as pessoas simples. Enfim, eu adoro a vida, curto intensamente de uma maneira bonita, honesta, essa foi a maior lição que eu tirei. O calor da torcida do Japão, por exemplo, é bem diferente da torcida brasileira.

FutRio – Você sentiu falta dessa paixão que o brasileiro demonstra nos estádios pelo futebol?
EmersonNo Japão, eu joguei e a média de público nos estádios era de 80 mil pessoas, é o clube de maior torcida na Ásia. Foi muito legal, eu não entendia muito bem o que eles falavam, mas era bom, o estádio estava lotado. Aí eu fui para o Qatar e tinha 80 pessoas, o maior público era de 300 pessoas. A nossa cultura com o futebol é diferente do resto do mundo, é paixão. Você pega um time pequeno aqui e se tem 500 torcedores no estádio, vai fazer mais barulho que 40 mil lá fora. É muito bom disputar o Campeonato Brasileiro, uma Copa do Brasil, Libertadores, é o maior barato. Lógico que tem que colocar algumas coisas na balança. Hoje, felizmente eu posso estar aqui e curtir isso, a gente sabe que as oportunidades que vem lá de fora são interessantes, carreira de jogador é curta, mas se o jogador tiver a oportunidade de voltar para o Brasil, sentir essa energia, vale a pena, porque é o maior barato.

FutRio – Quando você encerrar a sua carreira você pensa em continuar dentro do futebol?
EmersonEu tenho um sonho de criança que é montar um instituto. Na verdade eu não quero visar nada financeiramente, eu só quero ajudar. Quero dar oportunidade a crianças que não tem como eu não tive. A única que tive, acho que Deus falou: “pega aí”. E eu acho que dá para fazer uma coisa bacana, com seriedade, e esse é o meu maior desejo. Quando eu parar, quero descansar um pouco, mas está longe disso acontecer, já quer me aposentar? (brinca). Mas quero abrir um instituto para ajudar a garotada que tem pouca oportunidade. Um conselho para os que estão começando no futebol: Ser jogador de futebol é o sonho de muita criança. Vale a pena você acreditar, tentar, ir em busca dos sonhos, não esquecendo, pai e mãe, educação que é o principal, não pode deixar de ir a escola, eu não deixei e não me arrependo disso. Então acho que principalmente, não largar os estudos é o mais importante. Agora acreditar e ir em busca dos sonhos, vale a pena e se você acredita que é possível, vai com tudo porque é muito bom a gente fazer o que gosta. Eu faço e ainda ganho pra isso.